Aquilo que não sei ensina sobre o que preciso saber: um problema de dúvidas e falsas certezas

Texto: Laís Fritzen




A incompletude e suas lições. Certa feita um vaso de flores sumiu da casa de minha avó. Eram flores da estação, estavam em vias de concluir seu ciclo e perecer, então não foi uma perda valiosa, nem estimada. O que perdurou foi o mistério do acontecimento e a curiosidade acerca da verdade. Como forma de preencher as lacunas, e como todos amam uma boa fofoca, a dúvida se alastrou e cada parente ofereceu sua versão do acontecido: para a prima mais desconfiada, aquele era o exemplo prático da inveja de uma vizinha que não suportava ver as flores da casa ao lado mais coloridas; para a irmã mais conciliadora, aquele era o exemplo do coração bondoso da avó, que havia presenteado o vaso a uma conhecida e, em seguida, na iminência da ação de sua idade, esqueceu de todo a ocorrência. Histórias iam e vinham, hipóteses as mais diversas eram levantadas. Quem narrasse o acontecido criava seu conto do fato e teorizava as motivações do ato curioso a partir de suas próprias crenças; enfim, interpretava o fato e preenchia as lacunas existentes de acordo com sua visão particular.

O fim que o vaso levou não é importante para esta reflexão (até porque minha avó nunca deu por falta dele e, caso tivesse tido a chance de dá-lo, se por ventura alguém pedisse, teria dado de forma genuinamente altruísta). O que gosto desse pequeno causo é que diferentes versões para uma mesma existência real são possíveis e aceitáveis simultaneamente. Podemos descobrir a verdade por fim (quem levou o vaso, por que, o que fez com ele) ou não, mas as histórias criadas para preencher as lacunas acabam sendo mais fortes – e persistentes – do que a verdade. Afinal, uma fofoca daquelas bem cabeludas sempre fica na minha imaginação, mesmo descobrindo tempos depois que a verdade não era nada daquilo que se dizia.

Um pouco de estudo de Filosofia confirma a lição vista na prática. Se o campo da filosofia parece, à primeira vista, ultrapassado e, diriam os mais céticos, inútil, é ele, por outro lado, que oferece uma visão bastante ampla daquilo que compõe o pensar, porque é o campo teórico que vai à raiz dos problemas. Enquanto saber único, área que se sustenta por si, a Filosofia oferece um olhar crítico capaz de propor perguntas e problemas sobre todas as áreas do saber. O fazer filosófico, portanto, é tão amplo porque atua em todas as áreas, sobre o que pode ser pensado acerca delas – sua epistemologia, seu fazer teórico, sua organização, sua ética… cada filósofo de que se tem notícia dedicou-se a dar continuidade a conceitos de mestres anteriores ou, então, a desconstruí-los. Houve filósofos que teorizaram a existência de Deus e filósofos que teorizaram sua inexistência; há os que acreditam numa existência (física) material e os que não acreditam (metafísica). De todo modo, dada a forma como esse campo de estudo se desenvolve, uma corrente de pensamento não exclui a outra: é possível trabalhar as ideias de uma existência material com uma existência imaterial a fim de criar uma ideia nova em que as vertentes convirjam e conversem.

Eu, particularmente, estou alinhada à vertente que explora a existência material, e anuncio de pronto que não pretendo me alongar muito mais nesse ponto. O que me interessa nesse debate, como já avisei, é que diferentes vertentes podem atuar sobre a mesma questão, principalmente porque, para preencher as lacunas, cada uma propõe perguntas alinhadas à sua formulação única, como no causo do vaso de minha avó. Assim, uma existência material não precisa anular outras perspectivas, mas, ao estudarmos suas proposições teóricas, precisamos desvendar seu lugar de origem e sua organização estruturante para bem relacionar propostas à sua elaboração. 

Agora, acompanhe comigo: se tomamos que diferentes interpretações são possíveis para o mesmo fenômeno, resguardados seus lugares, organização e funcionamento, esse método não pode ser aplicado a todas as situações que vivenciamos? A queda inesperada da laranja da laranjeira poderia ser explicada simplesmente pela ação do vento. Entretanto, para a física, a explicação envolveria vários fatores visíveis e invisíveis, como a ação da gravidade. Por outro lado, para uma criança ou, talvez, uma pessoa com muito pouca educação formal, a explicação poderia ser paranormal ou espiritual. Todas as versões são verdadeiras simultaneamente e uma não é mais correta do que outra.

Acontece que a rotina que somos condicionados a levar no sistema capitalista não deixa brechas para essa dimensão 6D das explicações. O tempo se tornou uma sucessão de acontecimentos onde cada segundo conta. Precisamos SABER de TUDO porque temos um acesso tão fácil e tão grande a uma infinidade de fontes; e os espaços de intervalo entre ida e volta ao trabalho se resumem a acessar redes sociais, streamings de música e vídeo, e televisão porque precisamos SABER de TUDO. O conhecimento está na nossa cara, literalmente; ele não depende, salvo casos específicos, de uma viagem de horas até uma grande biblioteca ou ao único computador com acesso à internet de uma comunidade remota. E talvez por isso tenhamos tanta dificuldade em aceitar que não sabemos tudo.

Configura-se, portanto, uma lógica extremamente perversa. A rotina a que somos submetidos inflama a busca pela informação ao mesmo tempo que cria a redoma que garante a exposição somente a determinados materiais – e matérias – que os algoritmos prometem ser, em nosso benefício, associados, redundantes até. A redoma é eficaz em direcionar e condensar a implosão: somos limitados em acesso à diversidade de versões e bombardeados de certezas. E aceitamos, como quem agradece a dádiva da obviedade da vida.

Parece que, enquanto existência humana no interior do sistema capitalista, temos dificuldade em aceitar a possibilidade de múltiplas explicações (em mais de uma esfera ou conceito). Ora, se os meios para o conhecimento estão na palma da nossa mão, o caminho até ele não é óbvio. Excessivamente diversas são as possibilidades. Tal qual o causo do sumiço do vaso, ou as bases do pensamento filosófico, uma possibilidade não anula a outra, e uma não é mais correta que a outra. Ainda assim, buscamos a certeza, ansiamos pelo óbvio, especialmente quando tantas são as possibilidades, porque a instabilidade das dúvidas não apenas é cansativa numa organização social que exige respostas, como nos leva a encarar o real de nossa existência: que não há objetividade.

Achamos conforto em nossa redoma porque ela representa segurança, e aí está um grande perigo. Enquanto a dúvida gera vigilância – e a incompreensão se torna força mobilizadora –, a certeza paralisa, e a falsa certeza, por sua vez, torna-se mecanismo de manipulação. 

A essa altura da reflexão informo, caso não tenha entendido, que esse texto não é sobre as narrativas de um vaso de flores desaparecido, tampouco sobre diferentes versões de um mesmo fato, mas esses são fios da mesma meada. Eles permitiram uma breve discussão sobre a forma como nos organizamos, enquanto sociedade, perante a produção do conhecimento e as estruturas narrativas. E assim, arrisco dizer que esse conjunto é parte do porquê da eficácia do compartilhamento de informações falsas como mecanismo de manipulação. 

Em linhas mais gerais, desinformação é o nome utilizado para englobar as informações falsas compartilhadas deliberadamente ou ingenuamente – para manipular a opinião pública, no primeiro caso, ou por desconhecimento de se tratar de informação falsa, no segundo. De todo modo, mesmo o compartilhamento por desconhecimento atua em favor da manipulação, porque o objetivo da desinformação é atingir o maior número de pessoas possível e se tornar um conhecimento massivo. E, tal qual a fofoca cabeluda, a informação falsa adere ao imaginário e persiste. Diria, sem medo de parecer pretensiosa, que ela é como uma erva-daninha: nasce da objetividade que buscamos ver no mundo, cresce com os fertilizantes das leituras planas e espalha suas sementes facilmente através daqueles que refutam a multiplicidade de certezas.

Veja a ironia da questão. Quando o vaso de flores de minha avó sumiu, nasceram diferentes narrativas que eram necessárias para buscar respostas para a incerteza da situação. Na família, os que contavam e ouviam sabiam que nenhuma das versões era a verdadeira tanto porque não haviam visto o sumiço acontecer quanto, acima disso, conheciam as pessoas que narravam e podiam antecipar as visões pessoais que enviesavam a narrativa de cada familiar. Então, se a criação de hipóteses para compreender o desconhecido é fundamental na busca de respostas, as hipóteses são formulações de vieses narrativos distintos, razão pela qual afirmo que diferentes versões de uma mesma história são necessárias, desde que uma não se autoproclame absoluta em relação às demais.

A desinformação se autoproclama. Deparamo-nos com narrativas autoproclamadas objetivas com uma frequência tão alarmante que desconsideramos seu viés interpretativo. A proposta de que a mentira opera pela certeza não é uma invenção minha; vem de algumas leituras realizadas para entender e desfazer o imbróglio que a desinformação representa. A informação à serviço da manipulação se vale de uma visão pessoal que é vendida como uma verdade objetiva, já que assim é comprada facilmente e sua má intenção permanece oculta. Tendo esse entendimento, é preciso afirmar, contudo, que qualquer narrativa pode beirar, de fato, o desconhecido, como uma das versões do sumiço do vaso de flores poderia ser mais próxima de reconstruir o que não se sabia mas, ainda que reconstruísse, seria sempre parcialmente, por ser uma versão carregada de motivações pessoais produzida para reconstruir motivações externas inescrutáveis e, por isso, não tem razão em se proclamar absoluta.

Por mais difícil que seja, urge a necessidade de abraçar a dúvida. Se a desinformação trabalha por meio da obviedade, seremos cada vez mais forçados a encarar a incompletude inerente a nosso mundo. Abraçar a incerteza constitui um pequeno ato revolucionário, porque precisamos destinar um pouco do tempo que nos é tão caro e, parafraseando Ana Elisa Ribeiro, ter a audácia de estudar. Não podemos ficar confinados em nossa redoma à mercê de sua (falsa) segurança e, sim, devemos questionar sempre; a luta é árdua e constante.




Postar um comentário

Postagem Anterior Próxima Postagem