Música que me formou: Memória e identidade brasileira

 Camilo Cogiro




Estudei música durante vários anos, tendo iniciado minha formação ainda em Portugal, há mais de quinze anos. Meu primeiro instrumento foi o baixo elétrico, e eu passava horas exercitando a prática: leitura de partituras, técnica, repertório. Aqueles músicos brasileiros lendários — Tom Jobim, Chico Buarque, Ivan Lins, Beto Guedes, Gilberto Gil, entre tantos outros — moldaram profundamente meu ouvido. Ouvi repetidamente discos como Urubu e Passarim, de Tom Jobim; Quanta Gente Veio Ver, de Gil; As Cidades, de Chico; Angelus, de Milton Nascimento; entre muitos outros que conheço não apenas pelas canções principais, mas também por suas versões acústicas, releituras internacionais e algumas histórias que habitam as entrelinhas dessas obras monumentais.

Hoje, percebo a música não apenas pelo som, mas por seu papel antropológico, histórico e social. Enxergo-a como força criativa, rebelde, contestadora — uma afirmação profunda de identidade e de povo. O Brasil, produtor prolífico de arte e detentor de um patrimônio cultural singular, inventou o samba e a bossa nova, criou movimentos como o Tropicalismo e o Clube da Esquina, e estabeleceu diálogos intensos com sonoridades do mundo, passando pelo rock progressivo, blues, funk e tantos outros ritmos. Somos protagonistas na música; músicos brasileiros compuseram e executaram peças sofisticadas, admiradas e estudadas globalmente. Quem não conhece “Garota de Ipanema”? É um tema presente em repertórios de jazz nos cinco continentes — uma síntese, quase mítica, da nossa contribuição universal.

Nomes como Nelson Gonçalves, Cauby Peixoto, Dorival Caymmi e Luiz Gonzaga inauguraram a chamada época de ouro da música nacional, a partir da década de 1950. Depois vieram outros gênios — Tom Jobim, João Gilberto e artistas menos conhecidos do grande público, como Neco e Garoto. Esse terreno fértil propiciou o surgimento de grandes guitarristas, como Hélio Delmiro; percussionistas como Naná Vasconcelos; bateristas como Carlos Bala. É impossível resumir a riqueza técnica e estética desses criadores — mas é certo que o Brasil conserva, em seu acervo, alguns dos músicos mais sofisticados do mundo.

E é impossível falar dessa história sem destacar as mulheres: Elis Regina, considerada por muitos a maior cantora da música popular; Gal Costa, Alcione, Angela Maria, Dalva de Oliveira, Miucha, Joyce Moreno, entre tantas outras. Suas vozes, presenças e obras ampliaram horizontes e compõem um capítulo indispensável da nossa trajetória musical.

Tive o privilégio de assistir a grandes nomes da nossa música ao vivo: Djavan, Moraes Moreira, Lenine, Gilberto Gil, Luiz Melodia, Lô Borges, Milton Nascimento, Black Rio, Toninho Horta, Céu, Roberta Sá — entre tantos que me inspiraram e me alegraram com suas carreiras brilhantes. Participei também de um workshop com o saudoso Naná Vasconcelos, por volta de 2007 — uma experiência que guardo com enorme carinho.

A música brasileira rendeu e continua rendendo inúmeros livros, pesquisas e reflexões. Escritores, historiadores e críticos tentam registrar o que habita nas entrelinhas dos movimentos, os bastidores criativos, os conflitos e tensões que moldaram cada fase da nossa produção. Como músico, busco inspiração tanto nos grandes ícones quanto em artistas que permaneceram à margem do grande público, mas que possuem igual genialidade. Hoje, graças à internet, é possível conhecer instrumentistas, cantores e compositores extraordinários que mereciam um espaço maior — mas o mercado fonográfico e a lógica de consumo dificultam que muitos criadores alcancem a visibilidade que merecem.

Resgatando um pensamento recorrente meu: a arte é o principal ingrediente da cultura — ao lado da política, que também estrutura e dá sentido ao mundo. A arte forma opinião, comunica, expressa, questiona, incomoda, dá forma às ideias e inquietações humanas. A música, por sua vez, é uma das artes mais expostas e mais capazes de afetar o psiquismo humano. Tenho orgulho profundo da música brasileira; ela é, a meu ver, uma das mais sofisticadas, diversas e elaboradas do planeta. Mesmo sabendo que juízos de valor podem ser parciais, como músico me sinto no direito — e no dever — de avaliar técnica, conceito, arranjo, fonografia, narrativa estética. E sigo convencido de que a produção musical brasileira figura entre as mais ricas e luminosas do mundo.

Ainda assim, faço críticas à cultura de massa e à indústria musical que, muitas vezes, apagam talentos e reduzem a música a mero entretenimento. Quando vista apenas como produto, a música perde parte de sua potência transformadora — aquela que expande olhares, rompe padrões, transgride e liberta. Mas, apesar das limitações do mercado, sigo certo de que muito ainda é criado com profundidade e brilho por artistas que resistem e inovam, oferecem caminhos para uma vida mais plural e sensível.

O Brasil é um celeiro de arte — arte tropical, acalorada, inquieta, contestadora e cheia de múltiplos significados. A música, assim como outras linguagens, expressa dimensões sociais e subjetivas da existência, articulando criatividade, memória e psiquismo. É beleza em movimento, é pensamento em forma de som, é afeto traduzido em harmonia, ritmo e melodia. E permanece infinitamente necessária — para inspirar, para acolher, para contestar, para transformar e, sobretudo, para revelar aquilo que somos e aquilo que ainda podemos ser.

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