A cultura é a alma humana?

 Camilo Cogiro

Preparação: Laís Fritzen




A maior parte dos entendimentos antropológicos consideram as ideias darwinistas como corretas e adequadas para entender de onde veio o homem. Comumente, pesquisadores da Antropologia não dizem que viemos dos atuais macacos, mas que ambas as espécies têm origem de um antepassado em comum há cerca de 8 e 6 milhões de anos. Segundo estudos de paleoantropólogos, que pesquisam as origens e evolução da nossa espécie, homens com características da espécie humana moderna datam de 500 mil a 300 mil anos atrás, quando estima-se que tenham surgido o Homo neanderthalensis e o Homo sapiens, respectivamente. Atualmente, entende-se que 15 a 20 espécies de humanos primitivos, como a H. neanderthalensis, coexistiram até por volta de 40 mil a 12 mil anos a.C., quando teria restado apenas a H. sapiens, espécie da qual passamos a descender.


Entretanto, a origem da nossa espécie instiga pensadores de inúmeras áreas. Ao contrário de cientistas das ciências biológicas e antropológicas, que acordadamente definem que somos a evolução e adaptação de tipos de vida anteriores e inferiores, alguns religiosos acreditam que somos obra de um Deus, deus que em cada sociedade tem seu formato único. O Deus soberano, universal, existe em várias culturas, mas sua forma, constituição, imagem e papel é diferente em cada cultura e recorte de tempo. 


As várias espiritualidades também definem vários conceitos sobre a alma. Alguns atribuem a dignidade da alma apenas às pessoas; já outros, mais altruístas, concebem que todo ser vivo tem alma, ou, ainda, que tudo tem alma.


Uma vez ouvi de um artesão que “O homem é a grande aposta de Deus”. Certo é que, nós, humanos, nos destacamos das outras espécies por várias especificidades: a postura ereta, as mãos para manusear objetos, a caixa craniana, mas, sobretudo, a capacidade de produzir linguagem. Através da comunicação podemos mobilizar funcionamentos simbólicos e perpetuar a cultura, modificando-a e, assim, mudando também a nossa forma de viver no mundo. 


Um leão vive e caça da mesma forma há 300 anos; já nós, há 300 anos, vivíamos, nos alimentávamos e nos relacionávamos uns com os outros certamente de modo distante do que presenciamos hoje.


A Terra já passou por diferentes eras geológicas, desde períodos bem mais frios, com neves e geleiras, a tempos desérticos. A evolução das espécies é algo materialista, pois a ergologia esteve sempre presente na ação do homem, seja como caçador, coletor ou nômade, avançando para sociedades sedentárias e industriais. Somos, então, limitados por nossa estadia no mundo; vamos de acordo com as condições climáticas, relativamente ao funcionamento das marés, da agricultura e da obtenção dos recursos disponíveis que transformamos para suprir nossas necessidades.


Por outro lado, não importa quais sejam nossas limitações, a cultura mostra-se o principal destaque de qualquer grupo humano, pois é o que dá sentido e molda as ações da existência. O poder da cultura é o de destacar atores culturais diferentes como protagonistas de cada época, sociedade, tribo, aldeia, e até Estados nacionais, que são moldados pela progressão cultural dos povos. Talvez o assunto mais vasto das ciências seja a cultura, pois integra tudo que houve, que há e que pode haver, condizendo com o estabelecimento, a permanência e a perpetuação de nossa espécie.


Filosoficamente, podemos considerar que a evolução da alma humana é um desencadeamento de culturas, uma evolução dos modos de vida e das necessidades de pactos, de releituras culturais da humanidade. É por isso que, no caso das questões da crise climática causada pela ação humana, precisamos reconsiderar vários fatores, muitos deles ocasionais, da nossa cultura global, e propor a criação de soluções para problemas que a nossa própria espécie causou.


Não sei como é a existência após a morte. Se há alguma percepção espiritual consciente possível que não seja veiculada pelo corpo físico, uma alma, um espírito que habitualmente definimos como algo superior, livre, esclarecido, em vias de evolução e que possa ter alguma semelhança com a percepção de espaço e tempo que vivenciamos enquanto matéria. Será que tenho um nome espiritual como algumas religiosidades Afro acreditam? Será que o espírito tem gênero, ou o gênero é uma necessidade afirmativa? Muitos têm certeza das respostas, como já li em várias teses, livros e artigos, mas ainda não encontrei nada objetivo que me permita chegar a uma conclusão. Pode ser, de forma triste e angustiante, que morreu, está morto. Pronto, acabou. Podemos ser só processos biológicos adaptados à natureza, sem razão de ser.


Portanto, ao não ter certezas sobre o que vem depois da morte, ou sobre o que havia antes do nascimento, faço a relação da cultura com a alma humana através dos processos evolutivos, da consciência coletiva, dos acordos, das leis e dos momentos de cada coletivo.  


Agora, embora tenha dúvidas, já vivi fenômenos que me dão a resposta de que há algum mistério na existência. Existe algo a mais, alguma sintonia, alguma energia ordenadora, algum lugar comum. Aqui neste plano, entendemos esse lugar comum como a cultura, pois através dela podemos especular sobre o extrafísico por meio de percepções corpóreas, mas também evolutivas. Só começamos a especular sobre o espírito quando questionamos a morte, pois constatamos a temporalidade das coisas e, então, começamos a levantar ilações sobre a perecibilidade de tudo. Tudo morre, e a vida renasce, mas com qual finalidade? O que é a energia que permite todas essas ressurreições? Talvez seja o espírito…


Certo é que vivemos em função da Terra, do Sol e de todos os outros astros. E a cultura é a tecelagem que aprendemos a bordar, um acúmulo de ritos e simbolismos que preservamos, mas que também deixamos partes pelo caminho. Cultura e alma: caminham juntas, eternamente!


Contudo, eu não diria que os seres que não produzem cultura não têm alma, porque são animados pela mesma energia que me cria, despertam sob o mesmo sol que me aquece, e vivem e morrerão como eu. Então, eu, como ser humano, não sou especial, apesar da cultura que me guia, instrui e dá o discernimento. Pelo contrário, perante a natureza, as pessoas são os seres mais frágeis, pois precisam das coisas que inventam para viver. Uma formiga não tem nada, assim como um elefante nada tem. Nós, que precisamos de aparatos técnicos e tecnológicos para ficarmos vivos, de tanto inventar coisas, não conseguimos viver sem elas. Tente não ter à disposição uma cama, uma televisão, um celular, ou um supermercado... Aí perceberá que você é dependente de tudo que foi inventado.


O salto será quando entendermos as ideias, os conhecimentos, a cultura imaterial e parte da cultura material como integradas. Só assim nos ligaremos àquela alma livre que idealizamos. A alma só se teoriza em relação à cultura; mesmo o homem primitivo só passou a conceber uma alma depois de entender alguns elementos culturais relacionados à natureza que o cercava.


E para você, a cultura é a alma humana?





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