O poder da Arte e da Política

 Camilo Cogiro



Arte é arte! Embora seja legítimo preferirmos certos estilos ou linguagens, não devemos medir o valor artístico com base em critérios de “evolução” ou “superioridade”. Toda obra é expressão do impulso criativo de seu autor e reflete um modo singular de ver o mundo. A arte atravessa todas as culturas e todos os tempos. Vai das pinturas rupestres às cerâmicas milenares, das vestimentas tradicionais às pinturas corporais, das peças feitas com peles e penas aos usos da argila, da arquitetura monumental à música, escultura, literatura e tantas outras formas de representação.

Monumentos como as Pirâmides do Egito ou Stonehenge permanecem como enigmas técnicos e culturais. Mesmo com séculos de estudo, não compreendemos completamente como foram erguidos com os recursos disponíveis na época. São obras grandiosas que desafiam nossa imaginação e revelam o quanto a criação artística — aliada ao conhecimento técnico de cada período — pode ultrapassar as fronteiras do possível.

Existem inúmeros especialistas, historiadores da arte e museólogos que se dedicam a compreender os percursos e transformações das expressões artísticas. Eu mesmo, tendo estudado música com ênfase em música popular brasileira, carrego comigo parte desse olhar: conheço um pouco da trajetória da música popular da segunda metade do século XX e, por ser músico, interessa-me a arte em sua amplitude. Possuo quadros de artistas alternativos, anônimos para o grande público, e acredito que a arte é um dos principais motores de qualquer cultura. É por meio dela que refletimos sobre o mundo, sobre religiosidades, gêneros, celebrações, instituições, subjetividades e sobre todas as etapas da vida humana.

Arquitetura, pintura, escultura, música, cinema, dança, literatura — todas ampliam o nosso pensamento, tanto objetivo quanto subjetivo, e abrem caminhos infinitos de sensibilidade e interpretação. São ferramentas que permitem expressar e compreender o mundo conforme as condições de cada época. Não há sociedade que não produza arte, assim como não há sociedade que não produza política.

E é justamente aí que podemos avançar: compreender o papel estrutural da política enquanto elemento organizador da vida coletiva. A política, “a ciência da organização social”, deriva do grego politikós, aquilo que se refere à vida em comunidade, à pólis. Muitas pessoas hoje evitam o tema com frases como “não gosto de política” ou “não discuto política”. Mas essas afirmações se referem geralmente à política institucional, parlamentar, partidária — não à política como fundamento da vida social.

Política não se restringe a gabinetes, partidos ou esferas governamentais. Assim como a arte, ela está presente em todas as sociedades desde tempos imemoriais. Sempre que nos organizamos em coletivos, participamos de deliberações, criamos regras, discutimos direitos e deveres, estamos fazendo política. Quando dependemos de documentos oficiais para formalizar ações, quando interagimos com instituições, quando debatemos o que é justo ou não — é tudo política. Até mesmo os Direitos Humanos Fundamentais são uma pactuação de regras sobre liberdades e responsabilidades dentro da vida social.

A relação entre arte e política, portanto, é inevitável. A arte carrega posicionamentos, expressa conflitos, produz leituras de mundo e intervém nas disputas simbólicas e materiais da sociedade na luta de classes. Filmes, músicas, pinturas, performances, narrativas — todas podem denunciar injustiças, afirmar identidades, inspirar revoluções e confrontar poderes. Arte e política são elementos essenciais na formação e na afirmação de qualquer povo; são os alicerces que moldam a cultura, a memória e os horizontes de futuro.

Essa potência transformadora da arte e da política também foi destacada por importantes pensadores contemporâneos. Paulo Freire compreendia a cultura como um espaço de produção de consciência crítica e defendia que homens e mulheres se tornam sujeitos da própria história quando aprendem a interpretar o mundo para transformá-lo. Em diálogo com essa perspectiva, o filósofo Jacques Rancière argumenta que a arte reorganiza aquilo que uma sociedade é capaz de ver, sentir e pensar, ampliando as possibilidades de participação e de emancipação. Sob esse olhar, arte e política contribuem para construir novos horizontes de existência coletiva.

Quando orientadas por perspectivas emancipadoras e anticoloniais, arte e política tornam-se ferramentas poderosas de libertação. Elas podem fortalecer povos, preservar tradições, reconstruir histórias, desarmar opressões e abrir caminhos para modos de vida mais dignos, coletivos e conscientes. Não devem ser usadas como instrumentos de coerção, repressão ou doutrinamento, mas como meios de criação, colaboração, solidariedade e imaginação social.

Faça arte. Faça política.

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