Construção pessoal, materialismo dialético e espiritualidade

 Camilo Cogiro

Revisão: Laís Fritzen


Materialismo e espiritualidade são dois temas tidos como antagônicos. O materialismo comumente é interpretado como apego a bens materiais, interesse financeiro ou ambições. Mas Karl Marx, junto com Friedrich Engels, usou o termo para uma definição inovadora: para Marx, o materialismo é um método que procura pensar a sociedade a partir da análise de sua realidade concreta e de seus processos históricos. Então, aí já temos diferentes definições.

Quando eu estudo socialismo, comunismo, revoluções industriais e novos modelos de vida urbana, os autores primordiais geralmente são europeus, e eu sinto uma certa dificuldade — com base na minha identidade étnica ancestral, espiritualidade e essência contracolonial — em assimilar as ideias. Tenho dificuldade em equalizar os pensamentos nascidos numa Europa do séc. xix com minhas verdades fundamentais, que são culturais e inerentes à minha noção de pertencimento.

Quando os marxistas analisam a sociedade, eles a percebem como um meio desigual, de classes antagônicas e muita contrariedade. Tudo isso eu concordo, e observo no meu núcleo social. Sou um trabalhador que nada tem, portanto, nada tenho a perder numa batalha social. Caracterizo-me como revolucionário, no sentido de perceber a necessidade de lutar por um novo mundo, e participo de vanguardas políticas que partem de um princípio marxista com argumentos dialéticos.

Por outro lado, alguns dos textos clássicos de correntes socialistas e comunistas tratam a religião como uma fantasia, quase como um desvio de pensamento. Marx, em uma das suas célebres frases, afirmou que “a religião é o ópio do povo”, como sendo um alívio ilusório da população. Apesar de não me considerar religioso, discordo dessa afirmação. A religião é atemporal, está dispersa por toda a história e por todos os povos; não é algo desnecessário.

Dito isso, continuo dizendo que não me considero religioso porque não tenho uma doutrina religiosa específica: já participei do culto de algumas religiões, como a brasileira Umbanda, o Espiritismo, a Católica, a Wicca e alternativas. Muitos sacerdotes dessas crenças dizem que só é permitido participar das celebrações de sua religião, beber de uma única fonte, e afirmam que a comunhão de credos é incompatível. Mesmo que minha postura seja considerada transgressora, nenhuma religião me completa; preciso beber na fonte de várias espiritualidades, não apenas de um credo.

A construção humana é diversa. Alguns meios são mais homogêneos, seus integrantes obedecem mais às regras sociais e se contentam com filosofias uníssonas. Já eu sou multicultural, minha construção pessoal é multifacetada. Meu histórico de vida me colocou em contato com distintas formas de elaborar ideias, começando pela infância, em que tive contato com meus avós, praticantes de cultos alternativos como cromoterapia, mediunidade e orações diversas. Depois, passei por uma fase de bastante rebeldia e me desliguei de práticas espirituais.

A vida é feita de fases. No Ensino Médio, escolhi as Ciências Sociais como área de aperfeiçoamento — ainda com pouca noção do que se tratava, pela vaga ideia que eu tinha, era o meu maior interesse dentro da escola. Depois tive a música como ofício. Posteriormente, devido à minha necessidade e vocação de participação social, me filiei a um partido político, ainda pouco esclarecido das implicações práticas e teóricas.

De uns anos para cá, me tornei ativista social profissional, com base em estudo teórico e empirismo. Minhas inquietações, meus questionamentos e minhas perguntas favorecem essa atuação. Desde esse tempo, há alguns anos, minhas ideias mudaram de forma significativa.

Mediante essas circunstâncias, sinto a necessidade de formular ideias que congreguem minhas fases de vida, sem negá-las. Movimentos de contracultura, arte, e fases de estudo e leitura intensa são formadores da minha opinião. Aí, tenho que fazer um esforço enorme para agrupar saberes que, didaticamente, não se encontram juntos.

Conectar materialismo, saberes decoloniais afro-brasileiros, minha ancestralidade em África, minhas crenças espirituais e as memórias coletivas que trago de minha família com a triste realidade de viver num mundo capitalista e exploratório é uma tarefa árdua, que requer estudo, mas também uma mente muito aberta e pensamento fora da caixa.

O partido político de minha escolha me ajuda constantemente na tarefa de organizar o pensamento, sendo uma instituição dinâmica, que defende o trabalhador, que tem quadros próprios avançados e em que todos sempre me trataram com total respeito — às minhas teorias e ao meu modo de ser. Sinto-me integrado ao coletivo.

Acredito, de forma construtiva, que muito ainda precisa ser feito. Não estamos no mundo ideal; e o pensamento geral ainda é conformista. Mas vejo na juventude inquietação e força necessárias para ajudar a moldar o futuro. O mundo precisa de ânimo e ação, mas de uma ação construtiva e que não degrade o planeta, e isso só será possível se começarmos a pensar novas formas de produzir e consumir. Logo, eu tenho pesquisado sobre o ecossocialismo, uma forma de ser que acredito ser uma das soluções viáveis.

O que está em jogo não é determinar aquele que é mais revolucionário, — o mais contestador —, mas, sim, a necessidade constante de nos adaptarmos, pois cada um é único e vai experimentar diferentes realidades. Portanto, não podemos exigir que o ponto de vista do colega seja o mesmo do nosso: cada um está em um posicionamento e em um momento. O mais legal é o exercício de moldar o mundo e as formas de enxergá-lo, fazendo, assim, parte da construção coletiva que deve ser agregadora e construtiva, e não limitante e estigmatizada.

Assim, pensar materialismo dialético e espiritualidade se faz necessário na minha vivência, pois ambos compõem minhas bases, caminham exercendo uma dança de convicções e saberes. Até mesmo o curso de extensão acadêmico de que estou participando atualmente levanta estas questões: práticas do saber ancestral, mestres da cultura popular, com a politização, críticas ao capitalismo e muita vontade de aperfeiçoar o cotidiano, rompendo com máximas retrógradas do status quo.

Sempre acreditei na construção coletiva. Na verdade, eu preciso viver em bando: só alinhado a um grupo consigo me satisfazer; é uma característica minha. E, participando de diversos coletivos, consigo me formar; tento organizar minhas ilações e seguir aprendendo e colocando em prática nas oportunidades que são concedidas pelo meio, pelo universo, ou que vou criando e assimilando — integrando minhas verdades espirituais, materiais, sociais, psicológicas e de retórica própria —, moldando a subjetividade para algo que possa elaborar sobre vários assuntos, apegado à minha essência pessoal e às minhas capacidades.

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