Camilo Cogiro
O Dia da Consciência Negra (20 de novembro) está se aproximando. A data pontua a ação de Zumbi dos Palmares, grande liderança negra, com destaque no Quilombo dos Palmares, o mais emblemático ponto de resistência negra durante a época escravocrata. Zumbi era letrado e mestre na arte política da época. O Quilombo dos Palmares foi fundado perto do ano de 1590 e ficou ativo por mais de 100 anos. A localização era na Serra da Barriga, entre os atuais estados de Alagoas e Pernambuco.
Já estudei algumas coisas sobre o tema, mas penso que na escola convencional a abordagem acerca da cultura afro-brasileira é muito superficial. Outras lideranças negras como Ganga Zumbi, Aqualtune e Dandara também são constantemente mencionadas nos textos de história.
É fácil perceber que vivemos numa sociedade de origem escravista. A imaginação de um trabalho incansável, muitas vezes em condições precárias, como modelo de mérito, e frases constantemente utilizadas como “vai trabalhar, vagabundo!” ou “fulano não trabalha, é preguiçoso” são cartões de um povo que percebe o trabalho como uma obrigação e não como meio de satisfação, realização ou aprimoramento. A escala 6x1 está aí e não deixa dúvidas de que o pelourinho apenas ganhou documentação, como a carteira de trabalho. Certamente a luta de classes começou no Brasil pós-invasão europeia, atrelada a conflitos étnicos.
Muito já foi produzido, mas destacadamente com uma ótica eurocêntrica sobre a questão de biotipo no Brasil, no hemisfério sul e no mundo. Durante o séc. XX, vários europeus vieram para o Brasil estudar temas como as religiões de origem africana, a capoeira e questões que permeiam a construção do nosso país como república. Teorias eugenistas foram propagadas, aquelas que diziam que o negro “não é apto à civilização” ou que a mestiçagem impedia que o território se desenvolvesse. Autores que não merecem ser citados especularam sobre a necessidade de branqueamento da sociedade e outros absurdos.
Eu sou negro, antinormativo, neurodivergente, socialista e não possuo bens, apenas o suficiente para sobreviver com certa dignidade. Percebo que no Brasil não há possibilidade de ascensão social: nasce pobre, morre pobre. Isso em uma sociedade que tem o dinheiro como o principal ator, contrariando a questão das vocações, ambições etc.
Nossa sociedade é construída com várias questões que favorecem apenas alguns. Podemos entrar em pautas relacionadas à distribuição das possibilidades materiais, que é muito desigual. Concentração de renda, vão social, desigualdades fazem parte do rol das questões que precisamos trabalhar enquanto coletivo.
Recentemente, houve mais uma tragédia numa favela do Brasil. Mais de 100 pessoas foram mortas pelas forças de repressão do Estado, todos moradores de comunidades desfavorecidas e a maioria negros ou mestiços, colocando em evidência o preconceito enraizado desde lá de trás, onde os negros são castigados sem acesso a políticas públicas, educação, lazer, moradia, saúde etc. Os direitos da população negra são constantemente violados em um cenário em que somos a maioria.
As métricas capitalistas, de um Estado que favorece alguns, reproduzem cenas como negros se digladiando, pessoas de cor se matando e promovendo uma violência desumana, devido à falta de formação crítica e autocrítica sobre as nossas condições. O sistema nos coopta a entender o outro como ameaça, gerando sentimentos de desconfiança e temor. Na verdade, o colega precisa ser estimado como alguém que soma nas lutas e na caminhada por um país melhor.
Certo que avançamos bastante nos últimos anos, com a criação de leis que, além de determinar o racismo como crime etc., têm um caráter educativo. Eu lembro que, na década de 90, quando eu era um candidato a uma vaga na Febem ou em alguma delegacia de menores infratores, eu não tinha noção de que fui uma vítima do sistema; meus formadores de opinião eram destoantes e eu só via na transgressão uma forma de me afirmar.
A questão do negro na sociedade brasileira ainda precisa de muito trabalho. Enquanto alguns evitam o tema, com sentimentos de desconforto em abordar o assunto com mais profundidade, e defendem-se com argumentos de que “somos todos iguais” ou “racismo não existe”, nós, negros, sabemos que a diferença muitas vezes está no olhar, quando somos logo colocados em posição de subalternidade devido à cor da pele. Já li pesquisas que escancaram o preconceito, do tipo: uma pessoa branca vestindo terno é tida como empresário de sucesso; um negro de terno é um segurança de shopping. Esses estudos antropológicos e sociológicos demonstram o quanto o imaginário coletivo ainda é atrasado e escravista.
Atualmente eu participo da Comissão Estadual, aqui em Minas Gerais, da Frente Negra Revolucionária, uma iniciativa que reúne negros do país todo para lutar por uma sociedade mais justa, além de promover o socialismo. Geralmente, minha atuação como ativista ou militante é considerada radical, mas pensar que todos devem ter uma moradia digna, escola, trabalho e comida é ser radical? Essas atribuições de radicalidade são para desqualificar uma luta que é para romper com o status quo, enviesando para uma revolução.
O lugar do negro é de protagonismo, mas não deve ser um protagonismo como referência exótica ou campestre. Mas sim reconhecer que, a partir da cultura africana e afro-brasileira, o Brasil se ergueu. Filosofias e doutrinas como as dos Yorubas, Mandingueiros, Orunmila Ifá e tantas outras traduzem, de maneira inquestionável, a riqueza dessas origens.
O dia 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, não foi nos dado de graça; sua celebração é fruto de muita luta social, muitos negros foram pras ruas exigir respeito e dignidade. Então, é merecidamente uma data do calendário político nacional.
Viva a cultura negra, viva a África e o Brasil com sua multiculturalidade, em que o negro realmente tem destaque e merece ser reconhecido como motor deste país.
