Camilo Cogiro
Revisão: Vinicius Lima
Existe uma série de padrões comportamentais que são impostos socialmente de forma a manter todo um organismo coletivo que nem sempre considera subjetividades específicas. Quando pensa no outro, a sociedade tende a impor comportamentos ideais, como meios de subsistência, modelos afetivos, sexuais, educacionais e muitos outros que também compõem o rol que diferencia as classes. Dentro disso, temos forças coercitivas que tentam desincentivar condutas, tornando-as “não desejáveis” e até mesmo desprezíveis.
O louco sempre habitou o imaginário de diferentes culturas e, na dispersão do tempo, foi visto de forma também diferente e com conotações que podiam ser negativas ou positivas. A loucura mística, como foi vista em algumas sociedades e ainda se faz essa leitura dentro de alguns círculos religiosos/espiritualistas, como o obsediado por forças ocultas e tomado por comportamentos cuja natureza não se pode explicar pela medicina tradicional. Esses são, muitas vezes, submetidos a tratamentos alternativos que incluem passes mediúnicos, orações, receitas homeopáticas e uma série de métodos não cientificamente verificáveis, mas que podem responder e arrazoar a uma parte da demanda apresentada. Mas vamos lá…
Temos, no meio social, comportamentos ideais, como por exemplo ter um trabalho estável, interagir com a família de determinada forma e até mesmo casar-se quando chega certa idade. Por outro lado, também se verificam pessoas que fogem a essas regras, e algumas vezes essas pessoas são submetidas a forças sociais que as constrangem no seu modo de ser. Dentro desse universo temos os hospitais e as clínicas psiquiátricas que sempre abrigam todo tipo de pessoas. Pesquisas mostram alguns fatores relevantes na motivação para uma internação, como uma “mulher que escreve livros subversivos”, ou que “perdeu a virgindade antes do casamento”… Temos aí o exemplo de até que ponto pode chegar a necessidade de controle social por parte da própria sociedade.
Há mecanismos internacionais acionáveis que podem ser usados em caso de desrespeitos aos Direitos Humanos Fundamentais, mas mesmo assim verificamos povos que continuam desrespeitando seus semelhantes em várias frentes, seja em nome da religião ou privando seus iguais de direitos óbvios e atualmente contextualizados dentro da seara de acontecimentos. Nessa mesma conjuntura internacional, vemos como fatores e tensões de poder podem ser decisivos na articulação das Nações e das possibilidades para avançar diante dos desafios globais.
O movimento da Luta Antimanicomial é recente e se formou a partir de constatações de extremo desrespeito à figura humana em diferentes lugares do mundo. Seus precursores visitaram diferentes países e perceberam que a falta de trato com o paciente psiquiátrico era comum e constante, sendo um elemento com elevada incidência nas instituições psiquiátricas. Diante desse fato, e condizendo com a suposta benevolência humana que perseguimos a tanto tempo sem alcançá-la plenamente, esses profissionais, muitas vezes médicos, assistentes sociais e de outras profissões relacionadas, se uniram pela causa dos pacientes. Começaram a especular sobre novas formas de tratar essas pessoas. E quando eu digo tratar, é no sentido mais amplo mesmo, porque muitas delas apenas precisavam e precisam ser reconhecidas enquanto atores de suas próprias vidas.
As alternativas sugeridas pelos pilotos da Luta Antimanicomial permeiam a mudança institucional. Novos dispositivos de tratamento, novos manejos por parte dos psiquiatras, técnicas terapêuticas, novas acomodações, tempos reduzidos de estadia em unidades psiquiátricas, etc… Mas esses clamores não têm sido suficientes para apaziguar o sofrimento de quem passa por essas experiências. Continuam sendo invisibilizados, desprovidos de poder de decisão sobre o próprio destino e desacreditados na sua forma de ver o mundo. O paciente psiquiátrico, por mais funcional que ele seja, é visto sempre “portando” um adereço que é o seu diagnóstico. Os olhos humanos contemporâneos ainda não superaram essa visão, que associa a pessoa a uma determinação dada por um “profissional” treinado de forma mais ou menos boa e academicamente válida para decretar um desvio que é sempre visto como uma condição antinormativa.
O sofrer, como um questionamento interno, faz parte das pessoas. Porém existem fatores externos que podem potencializá-lo. Condições de degradação empregam situações de favorecimento a esse sofrimento. Assim como o conforto pode reduzir o sofrimento. Em um hospital psiquiátrico convencional pode-se verificar todo tipo de ações, muitas delas que usam da força para manter um comportamento tido como ideal pelos idealizadores daquele “circo”. Daí temos as contenções físicas com faixas, camisas-de-força e até cordas ou correntes. Temos também as contenções medicamentosas, com objetivo de dopar e tirar de condições normais aquele ser que já está em estado de revolta pela sua própria condição.
O diagnóstico psiquiátrico denota um sofrimento, seja ele mental ou psicossocial. É do sujeito que tem um carimbo de diferente, que não se adequa, que é visto como não funcional ou não cabe nos moldes perseguidos. O diagnóstico é uma timbragem, que se faz e afeta todo o destino daquele sujeito, que algumas vezes esteve tão somente passando por um momento difícil, de incompreensão do seu meio, de questionamento às normas, a esse próprio ideal. Mas a normalização coercitiva o torna inviável e até mesmo indesejável. O padrão de “melhor" ou de “pior” é necessário.
O que assistimos é uma massa, com alguns casos intrincados que servem de ponto de observação. O cidadão comum é massificado, não tem nenhuma distinção, não tem o mínimo destaque nem na qualidade de sua própria vida, e serve de expectador de uma realidade que se passa como água numa peneira pelos olhos comuns. A pessoa é incentivada a participar de forma passiva dos acontecimentos, sendo somente sujeito reativo e mecanicistas que exerce funções, que ela própria nem entende, mas não deixa de cumprir aquela personagem.
A Luta Antimanicomial deve ser, acima de tudo, uma rebelião, uma contestação do mundo como ele é. Pois assim como os seus supostos beneficiados, muitos deles não concebem esse mundo dessa forma. Pregam “Paz e Amor”, mas a vida nunca foi paz e amor. Desta forma, o status quo só está aí para manter uma rede de aparências, quando os mais observadores sabem que a conspiração se faz através de ferramentas e subordinação. O respeito a certas leis favorece a quem? Parece que o Estado só existe para defender a propriedade, pouco para ser um mecanismo de participação. Essa participação é ainda mais reduzida para alguns grupos e setores…
É bom que o outro seja diferente, que traga algo que eu não tenho, seja na visão de mundo ou no proceder. O mais legal seria fazer essa alquimia social, onde a dor causada pelo outro seja mínima, em que cada um possa ser quem realmente é sem ser coagido por mecanismos sociais que o reduzem, que o desacreditam e que tiram os seus direitos mais pessoais de ter sua própria opinião sobre a existência.
Aos ativistas da saúde mental: não desejem e lutem apenas por instituições melhores. Temos que lutar (pois ativista também eu sou…) por mentalidades maiores, inclusivas e que permitam ao outro a sua existência com toda sua originalidade.
Um meio social que restringe, aprisiona, tira da vida comum algumas pessoas boas, é uma coletividade malvada, que desrespeita a pessoa na sua qualidade maior que é o contato e a interação com o outro.
Por uma sociedade altruísta e solidária.
Liberdade para o corpo e liberdade de consciência!
