Camilo Cogiro
Muitas vozes reverberam em tempos de COP 30, Conferência do Clima da ONU. É imperioso mencionar que o evento é um espelho, um retrato de como várias lideranças estão equivocadas em suas cosmovisões. O dinheiro, instaurado na sociedade atual como o maior ator, segue sendo o grande mediador das fragilidades ambientais. Aí, levantamos ilações de que o que está em causa, o protagonismo não é pela preservação da natureza, mas sim por fatores econômicos, muitos pontos oportunistas, que podem servir de argumento para enriquecer ainda mais os que já são ricos, deixando de esmola algumas políticas para os povos originários, tradicionais e que vivem em contato com a natureza não modificada.
Temos que pontuar que a COP 30 serve de mola para o debate ambiental, com pré-conferências e eventos acontecendo por todo o Brasil, que chamam a atenção para a preservação da natureza, do clima, dos rios, das florestas... O materialismo da causa, o planeta e seus recursos findáveis não se conciliam com as ambições infinitas do capital, um novo modelo de produção e consumo deve partir da retórica de que precisamos viver com o que nos atende materialmente. Essas acumulações multibilionárias dos maiores magnatas do mundo contrastam fortemente com a situação da população comum, que nada tem, apenas a força de trabalho para garantir, no dia a dia, o próprio sustento, fazendo assim a engrenagem social funcionar.
A sociedade, concedendo enorme protagonismo ao capital e deixando o dinheiro como mediador das relações, se esquece de que deveríamos estar integrados com o planeta, existem exemplos claros de comunidades que viveram e vivem em harmonia com a terra, mas esses mesmos grupos são hostilizados por um modelo de vida que prioriza a acumulação. As emissões de carbono, as indústrias e os desmatamentos são reflexos da falência do capitalismo, são mazelas criadas pela forma como o capitalismo opera.
Se existem tantas críticas concretas sobre a operacionalidade do sistema, precisamos elaborar novas propostas para virar esse jogo. Existe uma grande parcela de pessoas que já entenderam que estamos no caminho errado. Mas os mandatários, arquitetos do capitalismo, continuam utilizando argumentos sedutores e falaciosos para convencer as massas de que enriquecer é possível, necessário e um modelo de sucesso pessoal. O capitalismo se reproduz ideologicamente nas propagandas, nas redes sociais, onde tudo é vendido, com objetivos claros de acumulação e luxo.
Não acho que devemos viver na pobreza, mas sim que a riqueza deve ser compartilhada, planificada. Atualmente vivemos uma quase anarquia comercial. Argumentos como “mercado que se autoajusta”, “livre concorrência” e “meritocracia” são falhos na entrega de mecanismos básicos para toda a população. As situações de degradação ambiental estão visíveis nos centros urbanos, colocando em xeque a tão especulada “sustentabilidade”.
Muitos argumentos da COP de Belém, no estado do Pará, Brasil, são econômicos. À medida que mensuramos a natureza através do dinheiro, menosprezamos um bem que nem tem valor e que é essencial para nossa sobrevivência. Precificar as florestas, rios, nascentes e montanhas é continuar nos moldes da devastação.
Sabemos que a ambição destruidora dos gestores das indústrias e dos meios de produção não tem tamanho. Aí, convertem-se ações de preservação do planeta em dinheiro — e isso não funciona. O capital, em sua lógica, é administrado para se multiplicar, enquanto os rios, as florestas e os recursos são limitados, e muitos são não renováveis. A natureza finda, tem um limite; a sanha capitalista é multiplicadora.
Então, estamos destruindo a natureza cada vez mais, já que a natureza é medida nos moldes do capitalismo — o capitalismo é multiplicador e os recursos naturais são limitados —, o mundo avança causando a extinção da vida.
Enquanto medirmos ações climáticas, tarefas de manutenção da vida, rios, mares etc. em contas bancárias, não conseguiremos avançar de maneira sustentável. O capital, com suas tendências multiplicadoras, contrasta com a materialidade, que é fixada.
Vejo uma mobilização necessária, utilizando o termo “ecossocialismo”. O arquétipo socialista acrescido à causa ambiental é o que vai nos fazer pensar em soluções. As problemáticas devem ser resolvidas por todos, cada um pensando em sua área de atuação e criando propostas que possam favorecer um novo modelo de vida.
As retóricas da COP 30 escancaram contradições. Se a natureza está atrelada ao capital, ela continuará sendo destruída, pois o capitalismo não tem rédeas; o capitalismo é a ganância em forma de sistema e não se importa com os coletivos, é um modelo de competição que se escora no individualismo e na falta de responsabilidade social. A COP, sendo uma vitrine do dinheiro, tem seu sentido desvanecido e é mais uma forma de sustentar o enriquecimento dos países que já são ricos e perpetuar as desigualdades sociais e ambientais.
É premente pensar a vida além do dinheiro. Alguns projetos já estão instaurados nesse sentido, e a importância está em estabelecer um jeito de olhar para o “outro” que não se meça através do dinheiro, e os recursos devem ser para todos. Em vez de nos apertarmos em lógicas capitalistas, é importante planificar e pensar em soluções que contemplem todos, favorecendo assim uma sociedade mais igualitária materialmente, em que todos possam exercer as próprias potencialidades com a certeza de um amanhã próspero e seguro.
.jpg)