Desmistificando a esquizofrenia

 Camilo Cogiro

REVISÃO: Vinicius Sousa

REVISÃO: Carol Amstalden



INTRODUÇÃO

Quando falamos em diagnóstico psiquiátrico, temos que levar em conta que seus resultados não definem quem a pessoa é. Cada indivíduo tem sua própria visão de mundo e sua subjetividade. Quando se trata do diagnóstico de esquizofrenia, queremos desmistificar algumas visões capacitistas e trabalhar para a inclusão de quem tem esse transtorno. Acompanhe o nosso texto sobre o assunto.




A esquizofrenia é um transtorno mental carregado de estigma pelo senso comum. Estudos revelam que aproximadamente 1% da população apresenta sintomas. É um número bem expressivo, mas ainda é um assunto que gera muitas dúvidas na sociedade. Na maioria das vezes, é associado a atitudes violentas e imprevisíveis, o que não corresponde à realidade. Estudos apontam que os acometidos não apresentam comportamentos violentos específicos relacionados à comorbidade. Eventualmente, quando o indivíduo não tem discernimento da verdade que o cerca, ele pode se colocar em situação de perigo, mas dificilmente apresenta condutas revoltosas.

Os principais sintomas são as alucinações e os delírios. Alguns pacientes ouvem vozes, como as “vozes comentadoras”, que comentam sobre seu comportamento, ou “vozes de comando”, que dizem o que deve ser feito. Essas vozes nada mais são do que alucinações auditivas. Em casos mais agudos, também podem acontecer alucinações visuais, onde o paciente vê coisas criadas em sua própria mente, que não existem na realidade objetiva. Isso leva a pessoa a experienciar situações exaustivas, quase sempre causando um estado de confusão. Outro sintoma relacionado são as sensações persecutórias, das quais falaremos mais à frente.

Para o paciente, os delírios e alucinações são muito reais, fazendo com que ele forje ideias e as insira em sua vida por meio de pensamentos delirantes. Ele cria cenários e enredos errôneos, acredita em tramas com juízo equivocado e desenvolve histórias fantasiosas.

Como dito anteriormente, outro quadro comum na esquizofrenia são os pensamentos persecutórios: a pessoa acredita estar sendo perseguida, vigiada ou, até mesmo, acredita ser vítima de uma conspiração. Também são relatados em manuais médicos sintomas como delírios de grandeza, delírios místicos religiosos e outros julgamentos fora de conjuntura. As sensações persecutórias levam o paciente a acreditar que estão falando dele na televisão ou, então, a relacionar situações alheias à sua própria vivência.

É importante perceber que o diagnóstico, visto isoladamente, não revela muita coisa da manifestação desse transtorno, pois não é algo homogêneo. Assim como em todas as pessoas, na amostra de acometidos com o distúrbio, existem questões intrínsecas à subjetividade e à singularidade de cada um. Alguns vão canalizar os sintomas para o trabalho, outros vão ter dificuldades em relacionamentos, alguns vão ser mais ou menos funcionais.

Os esquizofrênicos permeiam o imaginário humano. Podem ser geniais, com grande obstinação por uma causa, ou qualidades que o destacam da massa convencional. Vários filmes até romantizam o sujeito com dificuldades psiquiátricas, como “Uma Mente Brilhante” ou “Medo da Chuva”. Certamente é um estado de distinção, para o bem e para o mal.

Para falar de saúde mental, temos que falar de capacitismo, que é, nesse caso, a crença de que o indivíduo com transtorno não é capaz de exercer as tarefas profissionais e sociais tão bem quanto um indivíduo saudável, sendo, assim, pouco apto para a vida coletiva. O capacitismo subjuga a pessoa como devaneada, dada a fantasias e fora da realidade, e dizem que ela “vive no seu mundo”. Porém, quem não vive no próprio mundo não é individual, com características próprias, e sendo o principal ator no palco da própria vida. Qualquer pessoa tem as suas especificidades.

Os delírios e as alucinações podem variar, tanto em intensidade como em duração. Cada um reage do seu jeito. Existem alguns padrões e comportamentos mais ou menos comuns, porém cada pessoa tem sua originalidade. Alguns podem estar em crise como condição permanente, outros vão apresentar conflitos de ideias apenas em alguns momentos. Não há uma tabela de prevalência. É um diagnóstico muito amplo, contudo, existem sinais que evidenciam o desprendimento da realidade, mas os sintomas relacionados variam bastante.

A medicação é tida e defendida pelos médicos como uma saída das percepções errôneas. Ela interage com os receptores cerebrais, e tem ação antipsicótica, alterando alguns neurotransmissores e controlando sua produção. É estipulado que a administração medicamentosa correta pode controlar os sintomas e organizar o pensamento em quase todas as situações, até mesmo em casos refratários.  

O diagnóstico não impossibilita a pessoa a ter uma vida normal, como estudar, trabalhar e viver uma vida social de qualidade, por isso, não deve ser visto como uma sentença, como uma condição determinante. Cada pessoa enxerga o mundo da sua maneira, cada um tem seu vocabulário próprio, suas motivações, sonhos, ou seja, é apenas um indício de que, talvez, seja necessária uma atenção maior para a sua saúde mental. Com a reformulação e reestruturação da vida do paciente que teve alguma crise, é possível construir cenários funcionais e com qualidade de vida.

Se você tem ou conhece alguém que tenha esquizofrenia, pesquise, esteja aberto para aprender sobre essa premissa. Não é uma doença incapacitante, pode apenas se manifestar na maneira em que a pessoa enxerga o mundo! Existem muitas formas de interpretar o que acontece, e todas devem ser levadas em consideração, mesmo que às vezes com ideias confusas, qualquer um pode ensinar algo para o outro.

A ajuda profissional especializada é uma boa ferramenta para lidar com os casos. O terapeuta pode saber conduzir a condição clínica, orientando-o para as melhores decisões. Ainda são necessários ajustes nos dispositivos públicos, como os CERSAMs, os CAPS ou hospitais psiquiátricos convencionais. Fundamentalmente, os sistemas de tratamento não estão tão desenvolvidos, mas podem ser mecanismos mediadores em eventos específicos, atuando como soluções para acolhimento e amparo à pessoa em crise.   

Procure sempre oferecer conforto, afeto, atividades terapêuticas de qualidade para seu familiar. A dificuldade não totaliza o que a pessoa é!




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