Condição econômica - Divisão entre ricos e pobres

 Camilo Cogiro

Revisão e preparação: Cássia Farias 

Revisão e adaptação: Laís Fritzen




A diferença de rendimentos entre empresários e trabalhadores assalariados no Brasil é notória. Ela se exacerba ao lembrarmos que grande parte da população obtém sua renda com atividades informais e vive em condições precárias, sem acesso a direitos essenciais, como férias remuneradas ou auxílio saúde em caso de necessidade. 

O fator econômico gera uma grande disparidade entre as classes sociais e serve como meio de opressão dos mais ricos sobre os mais humildes: enquanto os mais humildes ficam ocupados vendendo sua força de labuta em rotinas extenuantes, não têm oportunidade de se organizar adequadamente para exigir melhores condições de vida. 

A maior parte dos brasileiros recebe menos de dois salários mínimos por mês, o que os coloca como necessitados e, muitas das vezes, hipossuficientes. Os ricos, detentores dos meios de produção, se aproveitam dos funcionários e os tornam reféns de um sistema que os hostiliza economicamente. 

É, de fato, difícil viver de forma satisfatória no Brasil. O salário é baixo e as horas de trabalho são muitas.

Desde muito tempo — remontando ao feudalismo —, donos de terras exploram seus empregados, que se veem obrigados a vender sua força de trabalho por pequenas quantias como única alternativa para sobreviver. Assim começa uma longa história, que culmina com o sistema opressor que é o capitalismo. Aqueles que o propagandeiam vendem a ideia de que é possível enriquecer e que enriquecer é a única personificação de sucesso. Sabemos que é um discurso falacioso!

Quantas vezes queremos comprar algo e não temos dinheiro, enquanto um super-rico desfila com um carro de alto-luxo. Esse abismo econômico é resultado da concentração de renda, que no Brasil é muito acentuada, gerando uma balança em desequilíbrio. A discrepância é notável no Sudeste pois, enquanto região mais desenvolvida do país, mais contrastantes são as realidades opostas de existência e subsistência, diferentemente de outros lugares do país, onde é mais comum perceber localidades inteiras em condições de extrema precariedade. 

A segregação perpetuada pelos mesmos atores da disparidade social torna-se, portanto, uma forma de arma social em que os que detêm os recursos oprimem os que não têm, submetendo-os a rotinas desumanas em busca do pão de cada dia, sem nenhum tipo de direito ou conforto. A sociedade se organiza em classes que vão muito além de diferenças culturais e ideológicas; são fruto de desproporções econômicas e materiais históricas. Este cenário assimétrico é um espelho das mesquinhas ambições humanas: quem tem dinheiro vive e quem é desprovido tenta sobreviver. 

Certamente, com o avanço da tecnologia e das novas descobertas antropotécnicas, a vida ganhou algumas facilidades. Acordos econômicos e políticos entre diferentes blocos e mecanismos multilaterais, e as evoluções nas comunicações são importantes elementos emancipatórios do século xxi. Mas não basta!

O abismo social remonta ao passado, onde monarcas eram os principais beneficiados economicamente no seu sistema de governo. A posição de Rei representava a escolha de Deus e a totalidade do Estado e da política dos territórios. Enquanto lugar absolutamente superior, os sujeitos que ocupavam essa posição usufruíam do controle sobre a vida de seus súditos e acumulavam posses materiais, construindo castelos opulentos, luxuosos, e oferecendo banquetes e confraternizações suntuosas enquanto o povo passava fome. A mais alta classe social, que desfrutava de todo tipo de privilégios, ainda abarcava rainhas (e outros membros da corte) e o clero, fazendo com que a Igreja ditasse decisões e guiasse a vida moral e estatal das Nações.

No Brasil, e em países africanos, a colonização denota a forma de exploração mais arraigada historicamente. Nenhum europeu chegou em nossas terras “numa boa”; vieram com tendências ultramarinas e expansionistas, com a intenção de saquear toda a nossa matéria-prima. Já a população que aqui se encontrava foi covardemente hostilizada, gerando uma série de conflitos e resistência dos povos nativos. 

Os de África, que viviam em comunidades sem demarcações geográficas muito específicas, foram surpreendidos pelo poder bélico da Europa. Os europeus estavam divididos internamente, e durante os séculos dos descobrimentos, xv e xvi, a corrida foi por novas terras, na maioria das vezes em outros continentes. Bélgica, Espanha, França, Portugal e Itália, todos disputaram o lugar de nação mais poderosa às custas de outros territórios e outros povos, que dispunham de matérias-primas como pedras preciosas, madeira, cana-de-açúcar, café — e mão-de-obra por coação física. O trabalho escravo e compulsório subjugava os povos a cumprir demandas que tinham a tortura como ferramenta de dominação e a morte como resultado.

Após essa análise conjuntural, observamos que a origem escravocrata da sociedade no Brasil é um elemento-chave em se tratando de diferenças salariais e de benefícios. A mobilidade social no nosso país é quase nula: não há possibilidades de ascensão econômica, a cultura é monopolizada e continua havendo uma tradição de exploração. 

Podemos elaborar que a retórica de mérito baseada no exercício do trabalho físico incansável tem origem nesse sistema explorador escravista. Rotinas de apenas um dia de descanso semanal são comuns no Brasil, e existe o hábito de jornadas ainda mais injustas, como no caso de pessoas que descansam apenas 2 dias por mês ou atuam em regimes análogos à escravidão.

Apesar disso, o povo já conseguiu avanços, que não foram pequenos. A própria antropotécnica permite que a sociedade avance a se torne mais justa. 

A abolição da escravidão, além de ter sido motivada por uma vontade de Dom Pedro II e alguns grupos, também foi influenciada pela implementação das ferramentas de produção amplas, dado o crescimento do mercado e o início da sociedade de alto consumo, uma vez que permitia que as tarefas fossem realizadas por máquinas e permitia a produção em maior escala, necessária ao aumento de consumo e ao lucro almejado por magnatas latifundiários e burgueses da época. 

Vemos que o sistema é injusto, que a distribuição financeira é desproporcional e que poucos usufruem de toda riqueza produzida. Grande parte fica condicionada a viver de forma humilde e sem acesso a produtos e serviços de qualidade por falta de verba. O trabalhador comum é refém de um capitalismo sem regras em que o mercado se autoajusta em função dos mais ricos, que continuam a enriquecer enquanto os assalariados só têm acesso ao básico e se veem desprovidos de condições de terem acesso ao lazer, viagens ou horas de descanso de qualidade.      

Não existem atalhos; é através da luta emancipatória que os resultados são obtidos. E a questão dos avanços tecnológicos é crucial para novos formatos.




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