Ecossocialismo: a urgência de um novo rumo para a humanidade

 Camilo Cogiro

Preparação: Laís Fritzen

Revisão: Vinicius Lima



Alguns militantes socialistas argumentam que o termo “ecossocialismo” é um desvio, um tipo de revisionismo do socialismo raiz. Eu defendo que a junção ecologia + socialismo dá destaque para ambas as políticas. Nessa junção, o que vai sobressair não é tanto o termo escolhido, mas sim as práticas cotidianas de preservar a natureza, de arquitetar socialmente um novo molde para os meios de produção, de socializar os espaços e as decisões e de desenvolver formas distintas de enxergar o mundo e superar a lógica mercantil atual.

Implementar o ecossocialismo é uma necessidade urgente. Já é sabido que as metas de emissão de carbono não têm sido cumpridas e que o ano de 2024 foi o mais quente da história. Isso nos dá um panorama da atualidade que coloca como desafio repensar todos os nossos aparatos convencionais. Operacionalizar um novo modelo de produção e consumo é fator premente na organização social.

Mesmo que estipulemos que uma revolução se faz necessária em todas as formas de indústria e meios de produção, é possível calcular que mudanças de hábitos feitas por pessoas comuns também podem impactar de forma positiva a natureza: da reciclagem de resíduos à economia de água, se forem feitas por todos, têm um efeito significativo.

Especialistas dizem que, mesmo se interrompidos todos os meios de produção e extrativismo existentes, já ultrapassamos os limites sensatos de exploração da natureza. Já os oceanos e as florestas, que são importantes reguladores do ecossistema, estão sendo dizimados pela ação humana devido ao acúmulo de plástico e dejetos, e desmatamentos e queimadas. Florestas como a Amazônica e a Mata Atlântica, que são regeneradoras naturais da Terra, absorvendo dióxido de carbono e produzindo grandes quantidades de oxigênio, devem ter a preservação local priorizada — o que não tem sido feito. Tendo em vista esse cenário, o ecossocialismo se sobressai como um modelo de vida humana em harmonia com a natureza.

Decorridas quatro revoluções industriais, a transformação do meio ambiente é gritante; o planeta Terra é levado a níveis de degradação extremos — e são as grandes empresas de extração e transformação de petróleo e gás natural que representam a maior ameaça à vida no mundo. As mineradoras (além daquelas que recentemente foram responsáveis por catástrofes ambientais no Brasil) agridem a natureza de forma sistêmica e deveriam, assim, ser reguladas conforme a manutenção do consumo humano, e não como atividade de ambições de acúmulo infinito de produção e renda.

O excesso de carros (altamente poluentes, porque dependem de combustíveis fósseis e são usados quase sempre para transporte individual) é um perigo crescente. No Brasil, não tem havido investimento em formas de locomoção menos poluentes, como ferrovias e transportes coletivos de qualidade. E a hodierna tendência dos carros elétricos coloca em evidência as contradições do capitalismo, pois, ao funcionar por baterias e sistemas que dependem de metais raros para sua fabricação, esses veículos alimentam a exploração das matérias-primas escassas, o racismo ambiental e a especulação internacional, e contribuem, portanto, para a crise ambiental e econômica.

As comunidades não urbanas de países periféricos são aquelas comumente exploradas pelas grandes empresas multinacionais que retiram os metais do solo, transferem toda a mais-valia para países ricos e historicamente proeminentes, e deixam apenas a destruição como herança.

Deveríamos tomar como exemplo os povos originários do Brasil, que foram — e são — os que mais vivem em harmonia com florestas e rios; estão integrados, são parte da natureza, portanto não se colocam como elemento superior que pode destruir e degradar apenas para estimular uma economia doentia, que privilegia poucos e deixa milhões em situação de hipossuficiência.

Cálculos matemáticos mostram que as 100 pessoas mais ricas do mundo têm um patrimônio acumulado maior que o de vários países subdesenvolvidos juntos. Enquanto alguns possuem jatos particulares — assustadoramente poluentes —, populações inteiras não têm acesso a água potável e saneamento básico, enfrentando elevados índices de doenças gastrointestinais, parasitárias e dermatológicas. As desigualdades estão escancaradas, ainda que por vezes nos recusemos a enxergar.

Levanto questionamentos sobre como os países mais ricos são os mais poluidores, colocando em comparação o índice de riqueza e produtividade com o aumento de degradação da natureza. Essa é uma incompatibilidade, já que o nível de riqueza e desenvolvimento é contrariamente proporcional à sustentabilidade da vida na terra. Acho que os líderes que tomam decisões que impactam drasticamente o planeta estão interessados apenas em “economia”, mas a sustentabilidade da vida deveria estar acima do dinheiro. A Guiana, uma ex-colônia da Inglaterra com uma reserva de petróleo que eleva seu PIB a níveis de alto desenvolvimento e uma renda per capita que se compara à de países de moeda forte, apresenta grandes desigualdades sociais: o extrativismo favorece apenas os super-ricos, que têm suas fortunas multiplicadas, enquanto a base da população é exposta a custos de vida exorbitantes e luta para sobreviver.

Em toda sua forma de agir, os magnatas demonstram não ter interesse na preservação da natureza e querer apenas enriquecer cada vez mais sem olhar para o povo; e os grandes tomadores de decisão, do alto de seu poderio, revelam total insensibilidade e indiferença com os mais pobres. Esses são os políticos que também promovem guerras — e fome, e escassez — em vários países em virtude de um pseudopoder pessoal e nacional. Israel e Estados Unidos patrocinam uma chacina étnica transmitida em tempo real, e mesmo as mobilizações mundiais não têm sido capazes de frear o avanço bélico contra o povo da Palestina.

Alguma coisa está errada. Estamos sendo conduzidos por gângsteres, mercenários com visões dissonantes das reais necessidades da sociedade. O capitalismo está acabando com a vida e com qualquer perspectiva sustentável de coletividade. É um modelo focado na competitividade e no individualismo.

Tenciono uma revolução, mas enquanto ela não acontece, não acho que seja uma contradição tentar desenvolver conceitos e hábitos ecossocialistas em um mundo capitalista, já que se eu não tentar elaborar outros meios de vida, estarei sendo conivente com o que tem acontecido — e não concordo com a gestão do mundo como ela tem sido feita. Os movimentos sociais devem tentar construir no presente as relações sociais que desejam ver no futuro.

Precisamos de um rumo, de exemplos.

Por enquanto somos apenas espectadores de confraternizações de luxo e de viagens transatlânticas dos governantes — e nossa vida continua difícil. A experiência e os relatos coletivos mostram o abismo social, e ele se dimensiona no meio ambiente. As empresas superpoluidoras são as que patrocinam campanhas publicitárias com imagens de florestas preservadas, oceanos azuis, e rios com água limpa, evidenciando ainda mais as disparidades humanas. Se a empresa não favorece a preservação ambiental e devasta a natureza, por que ela quer se passar por sustentável em suas propagandas?

Tá na hora de acordar, tomar um rumo e ter outras ambições. Ainda que as pessoas trabalhem com o propósito de ganhar mais dinheiro, almejando qualificações e melhores colocações, não deixam de continuar reféns do capital; talvez com um ou outro benefício a mais, mas sempre atreladas a um sistema exploratório. Viver para trabalhar, trabalhar para degradar! Esse tem sido o modo de vida normalizado pelo capitalismo. Enquanto isso, nos isolamos das outras espécies em centros urbanos que são construídos apenas com o intuito de sustentar a exploração.

Só o ecossocialismo é capaz de reverter a situação atual, de frear a extinção. Jornadas de trabalho humanamente sustentáveis também favorecem o meio ambiente, pois assim viveremos em mais harmonia com o planeta. A indústria, na forma como é concebida sem mensurar os impactos ambientais, não pode mais estar atuante. Precisaríamos parar um pouco, mas isso não é permitido pela lógica do capitalismo que define a acumulação como necessidade e nos informa que estamos sempre atrasados perante aquilo de mais novo que o mercado oferece. Sim, estamos atrasados, mas para impedir as consequências trágicas dessa lógica. A escolha de como consumir é fundamental para virar esse jogo que, até agora, estamos perdendo por decisão própria.

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