Diferentes posicionamentos dentro da União Europeia - U.E – Gerações - O recorte de um tempo

 Camilo Cogiro - Brasil

Moisés Manzano Montes - Espanha
Revisão: Vinicius Lima

Revisão e adaptação: Laís Fritzen



A construção da União Europeia começou como um projeto pós Segunda Guerra Mundial de estabelecer uma resiliência econômica e financeira autossuficiente para emancipar seus membros dos antigos ódios históricos. O Benelux, organização econômica formada em 1944, ainda durante a guerra, por Bélgica, Holanda e Luxemburgo foi o primeiro passo de um caminho europeu em que outras nações embarcaram com o tempo. A aliança franco-germana foi, sem dúvidas, inspiradora e atraente para o resto dos países, que viram uma oportunidade de construção conjunta sob um regionalismo capaz de competir no novo plano mundial globalizado.

Então, muito antes da década de 1990 se pensava em convenções de livre circulação de pessoas e de comércio único, com leis que fossem continentais. Tratados de economia e defesa interna passaram a ser assuntos comunitários de países que, após vários acordos multilaterais, firmaram a União Europeia (UE) em 1993. O raciocínio por trás dessa aliança, incialmente com 12 países membros e, hoje, com 27, poderia se explicar como uma evolução em três etapas: 1) fortalecimento dos laços econômicos para conseguir interdependência comercial e financeira, e competir no mercado internacional; 2) institucionalização política, com órgãos e leis próprias para garantir os interesses da região; e 3) socialização de povos, até então, divididos e hostis. De fato, ainda antes da adoção da moeda única, já se tramava um fortalecimento do continente com a implementação de outras medidas que uniam forças entre economias industrializadas (umas mais, outras menos) com uma renda per capita acima da média global e índice de desenvolvimento humano (IDH) elevado.

No ápice da UE, chegou a se falar, inclusive, sobre a criação dum exército europeu, na forma de uma cooperação militar, em meio a outras discussões internas que tratam do equilíbrio na competição de soberanias nacionais versus supranacionais. Com efeito, são, também, precisamente, as vozes críticas à limitação da possibilidade de decisões nacionais que apresentam riscos à longevidade da UE, como foi o caso do Brexit, termo pelo qual ficou conhecida a saída do Reino Unido da UE em 2020.

Na fase de institucionalização, foi criado um parlamento que representa a UE entre os países membros. Cada país aderiu a várias emendas para determinar os critérios de mecanismos políticos internos e externos. O Parlamento, além de outras instituições governativas, como o Conselho da União Europeia e a Comissão Europeia, continua sendo, e se mostra cada vez mais, uma boa fonte de democratização envolvendo uma complexa rede de balanço político.

Após a adoção da moeda única na Europa, gerida por um banco central também europeu – o BCE –, o continente teve grande ascensão infraestrutural. A partir de uma moeda forte, inúmeras agências europeias de investimento e injeção de capital trataram de equalizar do melhor jeito possível as necessidades das regiões, sobretudo perante as realidades discrepantes de norte e sul, que foram afetadas de forma diferente pelas políticas de austeridade criadas para conter a crise financeira de 2008. Nasceu, assim, o termo econômico PIGS (sigla composta por Portugal, Irlanda, Grécia e a Espanha) para diferenciar países que particularmente divergiam das tendências base da economia europeia nesse período.

Na terceira fase, de socialização, a UE trabalhou na defesa dos direitos pessoais para os cidadãos. Por exemplo, as fronteiras tornaram-se mais físicas e culturais do que políticas. Segundo relatos dos próprios europeus, antes da UE eles ficavam horas em fronteiras e aeroportos para viajarem para outros países da Europa. Já no cenário de seguridade físico-social atual, os cidadãos europeus têm direito ao Cartão de Saúde da UE e podem receber cuidados médicos em todos os países membros do bloco, assim como abrir empresas em outros lugares da Comunidade Europeia.

Apesar dos avanços que a UE representou enquanto conjunto de medidas econômicas, políticas e sociais para os países europeus, o cenário atual é de desconfiança e, por que não, de aversão ao bloco. A mudança de gerações representa uma mudança de valores na forma como a união é percebida: se antes era exemplo de reconstrução, força e estabilidade, para as gerações mais novas por vezes trata-se daquilo que está ultrapassado e atrasa o desenvolvimento.  

Uma das hipóteses discutidas a esse respeito propõe que houve/há uma grande diferença de expectativas de uma geração à outra. Os que viveram as ditaduras que violentaram sua comunidade, as consequentes fome e destruição, além da reconstrução da Europa, viram a criação da UE como uma forma de retomar um sentimento nacionalista, que havia sido destruído, através da posição histórica de ser Europeu pertencendo a um país que viu sua história individual, moeda e modo de vida mudarem rapidamente. Os jovens, globalizados numa era em que as comunicações não têm limites e aceleram qualquer tipo de informação, de um modo geral se reconhecem cada vez mais como europeus, como uma nacionalidade que está inserida no contexto do bloco em questão. Contexto esse tanto econômico quanto político e, principalmente, de livre circulação entre os países membros (até mesmo pela proximidade entre os países e as excelentes redes de transporte). 

Portanto, vive-se uma dualidade: os jovens globalizados, poliglotas, “multinacionais”, cosmopolitas e interessados em interagir com outros países; e os mais velhos, das gerações anteriores à UE, fazendo o balanceamento, defendendo as políticas nacionais, mas também usufruindo dos benefícios da união, que assumem o papel de ensinar história cultural e tradição familiar para os mais novos.

Nesse choque geracional acontece um fenômeno tão interessante quanto preocupante. Aqueles que não viveram o desespero e as incertezas do passado se valem de um saudosismo fantasioso que acredita que as condições de vida eram melhores, enquanto que, aqueles que viveram, por sua vez, falham ao transmitir a gravidade da situação passada ou, até mesmo, incentivam o saudosismo ao recontar memórias de forma distorcida ou extremamente particular. 

Nessa linha, algumas pesquisas demonstram que uma grande parcela de votantes dos partidos antieuropeus são jovens, como aconteceu na Alemanha no início de 2025, onde o número de jovens que votam na extrema direita aumentou. Eles caem nos discursos extremistas que olham o passado protecionista com nostalgia, enquanto as gerações mais velhas conhecem os riscos duma Europa desmembrada, competitiva internamente, fora do caminho do progresso, do respeito e da defesa das minorias. A tentativa de passagem da uma comunidade nacional para uma supranacional poderia representar uma ameaça aos costumes e tradições, o que frequentemente é usado como argumento para retornar a um passado opressor. 

Atualmente, quase todos os países têm a dualidade que mina e desacelera o diálogo construtivo para resolução de problemas: a Hungria enfrenta o extremismo de Orban, no cargo desde 2010 e apoiado por grupos de jovens extremistas; Le Pen era considerada a favorita à presidência da França em 2027 e, agora inelegível, ainda simboliza a extrema direita; e na Espanha, Abascal lidera a crescente extrema direita. Cada país da UE tem suas particularidades que alteram as condições em que as forças extremistas atuam.


Em suma, a União Europeia projeta a construção de um Estado do bem-estar gerido por uma União consciente entre tolerância cultural das nações e construção duma sociedade europeia unida. Enquanto organização econômica, é um bom exemplo de convergência onde repúblicas, repúblicas parlamentaristas e monarquias convivem bem e se ajudam sem perder suas identidades nacionais. Os fatores que ameaçam sua existência e capacidade de perdurar são múltiplos e precisam ser enfrentados em sua própria arena de combate de modo a garantir que prevaleçam condições econômicas, políticas e sociais favoráveis à diversidade de povos e nações.


Postar um comentário

Postagem Anterior Próxima Postagem