Camilo Cogiro
Revisão: Laís Fritzen
A burguesia, quando tem medo, proíbe, denigre, difama, mancha e propõe as mais covardes atitudes autoritárias para tirar seu alvo de cena. Assim a burguesia o faz com qualquer ideologia progressista ou revolucionária: tenta proibir e organiza pseudoargumentos como forma de mistificar aquele assunto de forma negativa. Age desse modo contra greves e revoltas populares, taxando seus integrantes de baderneiros; age desse modo com os trabalhadores que reivindicam condições dignas de trabalho e se organizam em coletivos no sentido de dar vazão às suas inquietações e solicitações. A burguesia é covarde; quando atinge o poder, o atinge — e mantém-se nele — por meio de coação e autoritarismo.
Vários autores, os principais que eu leio e que auxiliam em meu entendimento, se levantaram contra o capitalismo, o neoliberalismo e as extremas grandezas diversas. Em diferentes linhas, esses autores me ensinam e contribuem para minha formação pois me levam a abandonar um velho homem, aquela pessoa falha que fui ontem, a avançar ao ponto de podar e limar meus defeitos, e a me aprimorar ética, comportamental e ideologicamente. Esses arquitetos do conhecimento são de invariável importância na construção do alguém que um dia quero ser. Falo isso com a maturidade de não negar ou invalidar quem eu sou e quem eu fui. Poetas, políticos, filósofos, letristas, músicos diversos e vários outros deram, e dão, a direção necessária para eu me formar e evoluir de forma integral.
Com Paulo Freire não tem sido diferente. Desde que decidi ler autores clássicos — como Nietzsche, Marx e Engels, Rousseau e Jorge Amado —, pensadores que dedicaram toda uma vida à pesquisa e à produção de conhecimentos e conceitos, avancei substancialmente na seara das ideias. Hoje já não sou mais o mesmo de dois anos atrás. Cresci! Mesmo que continue falhando em algumas áreas da vida, já consigo fazer uma leitura muito mais crítica da minha vida, de seus fatores condicionantes e da historicidade de minha existência.
Sou filho de pais progressistas. Minha mãe é votante em partidos de esquerda; meu pai, humanista altamente espiritualizado. Porém, eu tento ir além dessa postura na minha colocação perante o mundo. Entender a dialética que nos envolve, o fato de sermos inacabados (como já disse Paulo Freire) e a nossa imperiosa necessidade de fazer arte, filosofia e política são elementos que me imbuem da vontade de mudar o contexto contra qualquer tipo de opressão, pobreza, carência, falta e ausência de oportunidade.
Sobre a minha atual leitura de Paulo Freire, percebo que o mérito do autor é ser, além de avançado e inovador, alguém que traz questões profundas e necessárias para a vida moderna; e ele faz isso com tamanha lucidez, pertencimento e clareza. É muito fácil entender Paulo Freire. O que ele queria dizer, ele disse — ficou dito e entendido, sem contradições ou academicismos desnecessários. Dos clássicos que li recentemente, é o que mais me indagou a criar por cima; é o que mais tem feito me questionar e questionar o contexto.
Não sei até que ponto Freire pode ser considerado um revolucionário (ou talvez eu ainda não tenha acessado essa parte da escrita dele). Contudo, o progressismo, no sentido de estar disposto a aceitar o novo e reciclar o que não precisamos, é também uma característica de avanço que Freire incorpora e denota com precisão. Isso mete medo na burguesia, que quer se manter às custas de injustiças, fomes, guerras… A postura de questionar, de ser agente de mudanças boas, de não se conformar, é frequentemente atacada pelos neoliberais.
Esses neoliberais pensam que dominam e convencem a todos, mas vários autores, assim como eu, já sacaram qual é a deles: querem estar com o poder econômico, e consequentemente com o poder político, para que possam explorar e diminuir a massa trabalhadora sem consequências, reproduzindo um capitalismo modelo de competição e ausente de solidariedade. Esse pessoal tem medo das revoluções, tem medo de que as pessoas sejam instruídas, pensantes e que façam arte de verdade, aquela arte que tem o poder de agregar a novos desencadeamentos harmônico-sociais que podem emancipar o povo. Os neoliberais têm medo de soluções que elevam os trabalhadores. Novos métodos são constantemente reprimidos, pois caminham em sentido contrário ao capital.
Nenhum ator social isolado vai mudar tudo definitivamente; são necessárias agendas complementares que passam, obviamente, pelos trabalhadores, pelas massas, mas também por vanguardas políticas, pensadores diversos e intelectuais em vários âmbitos e frentes. A revolução é feita através do avanço das consciências que, descontentes com a luta de classes, vão se rebelar organizadamente e tomar a frente em elementos da vida social.
Então, atualmente, considero Paulo Freire um dos autores mais avançados literariamente que já li. Aprecio ler Freire não só pelo conteúdo e pelos resultados da leitura, mas também pela beleza estética de seus textos.
A busca por novos valores é no sentido de nos desafiarmos para concretizar voos mais altos — pessoais e somando nos coletivos. E para isso é fundamental o “cimento” teórico: para dar liga na nossa construção de vida. Freire faz essa argamassa com primazia.
