Filosofia indefinida: divagações

 Camilo Cogiro



A palavra filosofia tem origem no grego antigo philosophía (φιλοσοφία), formada pela junção de duas palavras: phílos (φίλος), que significa “amigo”, “aquele que ama” ou “aquele que tem afeição por algo”, e sophía (σοφία), que significa “sabedoria” ou “conhecimento”. Assim, etimologicamente, filosofia significa “amor à sabedoria” ou “amizade pela sabedoria”. A filosofia não representa a posse definitiva do conhecimento, mas uma disposição permanente para questionar, aprender, refletir e aprofundar a compreensão sobre a realidade, a existência e o mundo que nos cerca.

Eu já havia escrito um texto com o título: “Filosofia indefinida”. Quando pensamos em filosofia, certamente vêm à mente os filósofos da Grécia Antiga ou textos complicados que tratam do saber. Eu, após considerável repertório de leitura e vivências, me empenho na empreitada de escrever sobre filosofia.

Inspirado nas concepções apresentadas por Marilena Chaui em Convite à Filosofia, o conceito de filosofia pode ser resumido da seguinte maneira:

A filosofia é uma das mais antigas formas de investigação humana; consiste na busca racional por compreender a realidade, a existência, o conhecimento e os valores que orientam a vida em sociedade. Ela se diferencia de outras formas de explicação por privilegiar a reflexão crítica, a argumentação lógica e o questionamento constante das certezas estabelecidas. Ao longo da história, a filosofia contribuiu para o desenvolvimento das ciências, da política, da ética e da cultura, estimulando os indivíduos a pensar de maneira autônoma e consciente. Mais do que um conjunto de teorias, a filosofia é um exercício permanente de reflexão sobre o mundo, a sociedade e a condição humana.

Podemos pensar a filosofia não somente como uma ciência, com várias estéticas e conteúdos. Alguns filósofos se dedicaram a discutir o que é a verdade, de onde viemos ou até mesmo o que é o próprio conhecimento. Enquanto autor, eu tenho uma definição própria, bastante ampla, sobre o tema. Acredito que um insight pode ser filosofia, ou definiria, com as minhas palavras, que “filosofar é questionar, perguntar-se e responder, tentar chegar a conclusões com base nas ideias do conhecimento”. Dito dessa forma, concluo que é um mar de possibilidades.

A sociedade é de tal modo complexa que não é possível qualquer síntese social que abarque todos os seus elementos. Muitos autores desenvolveram teses sobre sociedade. Alguns propuseram novos modelos de sociedade, pensando em recortes econômicos ou organização política. Antigamente, o número de escritores era menor, até mesmo porque a educação era restrita e poucos conseguiam acessar o conhecimento de forma ampla. Considera-se que a primeira universidade com características próximas ao que é hoje foi a Universidade de Bolonha, ainda no século XI d.C. Contudo, podemos regressar à “Academia de Platão”, uma instituição filosófica fundada por Platão por volta de 387 a.C., em Atenas, na Grécia Antiga. É considerada uma das primeiras escolas de ensino superior da história e exerceu enorme influência sobre a filosofia, a ciência e a educação ao longo dos séculos.

Desse modo, vemos que há bastante tempo existem instituições que propagam o conhecimento, mas, como dito anteriormente, antes o saber era muito mais restrito. É fácil entender que a possibilidade de adquirir livros aumentou nos últimos séculos. No passado, era muito caro comprar um livro; apenas quem tinha bastante dinheiro ou muito interesse era capaz de acessar os livros. A invenção e a popularização da internet também foram um fator decisivo na circulação de ideias, ampliando enormemente o acesso ao saber. Isso contribuiu para transformar a educação, a ciência e a vida intelectual de maneira duradoura.

Antigamente, produzir um livro podia demorar meses ou até mesmo anos, já que era feito de maneira artesanal. Na Europa medieval, um livro era copiado à mão. Além disso, o pergaminho utilizado era caro: uma única Bíblia podia exigir a pele de centenas de animais.

Relatando esse percurso, fica evidente que hoje o conhecimento médio é mais difundido. Eu tenho acesso a livros e gosto de leitura; também pesquiso na internet assuntos do meu interesse. Mas, mesmo assim, não reivindico a condição de pesquisador ou cientista, nem mesmo das Ciências Sociais, área em que me interesso e conheço melhor. Sou um leitor curioso pela sociedade e suas correlações, como, por exemplo, saúde mental e política. Minha abordagem tenta ser pragmática e geralmente trata de assuntos contemporâneos que dialogam com o dia a dia do brasileiro. Escrever, no meu entendimento, significa compartilhar ideias, contribuir com o conhecimento e me dar ao mundo.

A universidade é um importante centro de produção de filosofia. Talvez seja o principal, certamente é o hegemônico. Mas, para mim, filosofar não é uma atividade restrita às universidades ou aos especialistas. Quando uma pessoa questiona as causas da desigualdade social, reflete sobre os limites da tecnologia, discute o sentido da existência, analisa criticamente as relações de poder ou procura entender seus próprios valores e escolhas, ela está realizando um exercício filosófico. A filosofia permanece sendo uma ferramenta importante para desenvolver autonomia intelectual, combater dogmatismos e ampliar a capacidade de compreender a complexidade do mundo contemporâneo. Vários autores fora da universidade realizam produção de conhecimentos relevantes.

É preciso questionar: O que é filosofar?

Deixo essa pergunta em aberto, já que falei anteriormente sobre o que considero tal ação. O debate sobre a produção erudita e a produção popular, que se manifesta no pensamento, assim como na música e nas artes em geral, tem sido considerado em diferentes espaços. O reconhecimento dos mestres populares é mais discutido atualmente, até mesmo dentro das universidades. O saber não se restringe aos muros acadêmicos. Muitos saberes são perpassados em comunidades populares. Várias soluções para desafios individuais e coletivos são produzidas pelo “povão”.

Outro questionamento importante é definir o que é o conhecimento. Em muitos casos, ele é definido pela necessidade da linguagem escrita. Mas é constatado que conhecimentos tradicionais têm forte difusão oral, como no caso da Umbanda, da agricultura familiar e agroecologia e dos saberes práticos do cotidiano. Resumir o conhecimento ao que é escrito e validado por uma corrente intelectual é suprimir o próprio conhecimento.

Alguns críticos dos meus textos dizem que, na minha obra, faltam referências bibliográficas. Na verdade, é uma opção de escrita, já que escrevo por insight, embasado no que sei por meio de pesquisas, mas também pelo que adquiro pelo empirismo. Não escrevo teses doutorais, sequer tenho formação superior. Fica nítido que minha escrita parte da urgência, da necessidade de falar, e tem características discursivas. Não faço ciência; talvez, em alguns momentos, eu faça filosofia.

Em um contexto de desinformação, polarização política e crescente influência dos algoritmos sobre o comportamento humano, filosofar tornou-se também um ato de resistência intelectual. É a disposição de pensar por conta própria, dialogar com diferentes perspectivas e buscar respostas sem abrir mão da dúvida, da razão e da reflexão crítica. Nesse sentido, filosofar hoje é uma forma de compreender melhor a sociedade, a si mesmo e os desafios do nosso tempo. Pensar o mundo é imperioso para contribuir com a própria comunidade. Com as possibilidades comunicacionais, é indispensável estar com algum repertório bem dominado.

Defendo a autopercepção. Como forma de respeitar as subjetividades, creio que a autodefinição tem muita força. Assim, quando alguém diz que é músico, eu o considero músico. Quando alguém diz que é, geralmente isso basta para ser. Claro, sem delírios. Esse respeito imprime a aceitação e o reconhecimento de quem é, porque se reconhece como tal. Obviamente que cultivo opiniões baseadas na minha bagagem prévia de vida, e posso gostar ou não de determinada obra. Mas o próprio sujeito se define, diz o que exerce, do que gosta e o que é, sobre sua própria obra. Simples!

Indefinir a filosofia é permitir que ela seja. Pode ser uma poesia, versos rebuscados, um refrão, um rap, qualquer expressão genuína, qualquer grito para o mundo. Aí é que entra a estética; existem filosofias de diferentes estéticas, não apenas textos de Platão, ou que se inspiram em conhecimentos e questões dos filósofos reconhecidos. Várias músicas são filosofia; dança e artes plásticas podem ser filosofia.

Acho que, se eu submeter a minha opinião a algum filósofo acadêmico, que provavelmente vai ter uma definição mais rígida do que é “filosofia” e, de forma certa, já estudou a definição academicista de filosofia, ele pode dizer que a filosofia é um campo delimitado por consensos e que isso é importante para definir do que se trata. Mas minha linguagem não é a acadêmica, não vivo entre os muros da erudição. Defendo minha postura com o argumento de que qualquer pessoa comum pode se contemplar com pensamentos estipulativos que agreguem à sua cosmovisão.

Quando jovem, eu costumava ter “conversas filosóficas” com os meus pares, e era isso mesmo: falar sobre política, sobre relacionamentos amorosos ou sobre família, com uma perspectiva de reflexão e entendimento. Desse início vêm a amplitude e as características da minha percepção. É mais bonito para mim contemplar, não delimitar com base em definições rígidas o que eu penso e como as coisas repercutem em minha vida.

Se eu bem me lembro, no outro texto que escrevi com o mesmo título, falei sobre os Racionais MC's produzirem ideias tão ricas como as de Platão ou de Marx. O povo é o povo; não devemos restringir o mérito a “elites intelectuais”, muitas das vezes inacessíveis, que requerem informações prévias muito específicas.

A “verdade” tem o seu ponto de vista; é honesto e é necessário dizer sob qual perspectiva estamos olhando. Nesse texto, eu olho da perspectiva média, cotidiana, da vida de quem pega transporte público, do cidadão comum. Não assisti a horas de aulas especializadas. Já frequentei cursos de extensão em ambientes acadêmicos, mas não tenho nenhuma validação própria, nem autoridade para falar sobre qualquer assunto. Dizer a verdade é não agir com má-fé. No conceito de J.-P. Sartre, a má-fé pode ocorrer quando uma pessoa engana a si mesma, negando sua própria responsabilidade. Em vez de reconhecer que faz escolhas e é responsável por elas, o indivíduo atribui suas ações apenas às circunstâncias, ao destino, à natureza ou ao papel social que ocupa. Na linguagem cotidiana, entretanto, má-fé costuma significar agir com desonestidade, intenção de enganar ou falta de sinceridade. No direito, por exemplo, alguém age de má-fé quando sabe que está cometendo uma fraude ou ocultando informações para obter vantagem.

Todos esses tipos de má-fé são inaceitáveis, caracterizam uma forma de fugir do que se é. “O que é” tem muito peso; é a facticidade, a materialidade, a ação, o acontecido. A realidade se impõe acima de qualquer ilusão. Mesmo com a discussão sobre a realidade ser material, mental ou existir independentemente, é importante investigar o que parece ser e o que é realmente. Tão importante também é não fugir da dúvida. A realidade é o que se apresenta, mas também uma construção; algumas vezes, é uma unanimidade.

É possível encontrar considerável repertório sobre todos esses temas que tratei até agora. Apenas transito com a minha linguagem. O que é a verdade? As bases mais difundidas sugerem que é aquilo que corresponde à realidade ou que pode ser justificado de maneira confiável.

No entanto, diferentes correntes filosóficas a interpretam de formas distintas. Eu concordo que “verdade” é o fato, mas também um conjunto de crenças, conceitos ou teorias. A verdade depende da consistência lógica entre diferentes proposições. Não descarto que a verdade possa ser ressignificada, e aprovo que ela também possa ser temporária. A minha colega Laís Fritzen já escreveu sobre a verdade na ótica de quem explica um acontecimento; muitas vezes, as narrativas não coincidem entre si, mesmo partindo do mesmo fato. A verdade é também uma interpretação; pessoas têm os seus pontos de vista, assim concebem as verdades de maneira própria.

A minha verdade sobre filosofia é minha, mas pode ser compartilhada. Acho que não é insensato acreditar que outras pessoas possam pensar como eu. O saber da comunidade, das ruas, da vivência comum precisa ser propagado, difundido, trabalhado, exercitado, para assim ser aprimorado.

Outro elemento importante para entender a filosofia é a razão: capacidade humana de pensar, compreender, julgar e estabelecer relações lógicas entre ideias. Para Platão, a razão é a parte mais elevada da alma humana. Ela deve governar os impulsos e desejos, conduzindo o indivíduo em direção ao conhecimento verdadeiro e ao bem. A razão permite acessar o mundo das ideias, considerado por ele mais real do que a realidade material e física que nos cerca.

Para Descartes, considerado o pai da filosofia moderna, a razão é a principal fonte do conhecimento seguro. Seu método filosófico baseava-se na dúvida sistemática, até chegar à certeza expressa na frase: "Penso, logo existo" (Cogito, ergo sum). A razão seria capaz de conduzir o indivíduo à verdade por meio de métodos rigorosos.

Já no meu entendimento, a razão é a capacidade de discernir, de avaliar criticamente. Pode ser sintetizada como a habilidade de enxergar o que existe, comparar diferentes noções e estar contida na linguagem. A linguagem é o instrumento da razão; sem linguagem, seria muito difícil desenvolver formas complexas de raciocínio abstrato, transmitir conhecimento ou elaborar teorias sobre o mundo. Razão, assim, é também nossa capacidade de decidir pelo que achamos mais correto, convincente ou o que nos serve.

A linguagem não é a própria razão, mas é o principal meio pelo qual a razão se organiza, se desenvolve e se comunica. Ao mesmo tempo, nem toda a experiência humana cabe inteiramente na linguagem objetiva. Embora a razão se organize principalmente por meio da linguagem, a experiência humana não se limita ao que pode ser plenamente descrito em palavras. Emoções, afetos, sensações estéticas e vivências subjetivas frequentemente ultrapassam os limites da linguagem conceitual. É justamente nesse espaço que a arte muitas vezes se torna a própria filosofia.

Por isso, a arte também pode ser uma forma de expressão filosófica; por meio da arte, damos vazão ao indizível. Muita coisa só pode ser dita por meio da arte; a arte é capaz de expressar subjetividades que escapam à linguagem direta. Por isso, como foi dito, filosofia pode ser música, poesia, pintura… A arte, juntamente com a filosofia, proporciona experiências catárticas. Sob uma perspectiva psicossocial, a arte e a filosofia podem ser compreendidas como manifestações das condições históricas, culturais e afetivas de uma sociedade.

Para mim, a filosofia nunca pode ser completamente definida. Sempre que alguém observa o mundo, estranha aquilo que parece natural, formula perguntas e busca compreender a realidade, existe ali um gesto filosófico. Numa universidade, numa comunidade tradicional, numa roda de amigos ou em uma canção popular, o pensamento continua sendo uma das formas mais profundas de participação humana no mundo. A filosofia, afinal, talvez seja menos um lugar e mais um movimento permanente da consciência diante da existência.

Com esses argumentos, solidifico que minhas ideias não ficam presas a quaisquer algemas. Pesquiso a partir de referências, mas tento tensioná-las, trazê-las para o meu universo, fazer com que as ideias tenham sentido na minha construção de vida. Tento ler livros relevantes por prazer e para avançar intelectualmente, mas não sou adepto de certezas absolutas. Quando eu sintonizo com algo, significa que se insere na minha vida; utilizo esse tipo de conhecimento para formar minha própria opinião.

Quem pode produzir filosofia?

A filosofia pode ser produzida por qualquer pessoa que se disponha a refletir criticamente sobre a existência, o conhecimento, os valores e a vida em sociedade… Embora a filosofia tenha se desenvolvido historicamente em escolas, academias e universidades, sua prática não está restrita aos especialistas. Desde a Grécia Antiga, filósofos como Sócrates defendiam que o questionamento era uma atividade possível a todos os seres humanos.

No entanto, produzir filosofia não significa apenas expressar opiniões. A atividade filosófica envolve argumentação, análise conceitual, coerência lógica, diálogo com outras ideias e disposição crítica e autocrítica. Nesse sentido, qualquer indivíduo pode filosofar, mas a construção de uma obra filosófica consistente geralmente exige estudo e algum aprofundamento.

Sob uma perspectiva contemporânea, a filosofia também pode ser produzida por pessoas que observam criticamente seu contexto social, político e cultural e desenvolvem pertinentes interpretações sobre a condição humana. Trabalhadores, artistas, educadores, pesquisadores, ativistas e cidadãos comuns podem contribuir para o pensamento filosófico, desde que suas reflexões busquem compreender a realidade de forma racional e argumentada.

Finalizando…

Ficou nítido que, para mim, filosofia é um espaço aberto e acessível, e deve ser explorado por pessoas comuns, assim como por especialistas. Muitos se fecham em seus saberes e os consideram únicos por validação curricular ou de algum diploma. A vida contém filosofia. Antes de escrever, as pessoas pensam e conversam. A filosofia formal vem depois. Por isso, aproveitar o percurso e interagir criticamente, visando ao questionamento e à criação original, é uma necessidade histórica. Precisamos criar perguntas e respostas para construir um mundo de maior entendimento. A filosofia não pertence a uma profissão específica; ela pertence ao exercício da reflexão crítica.




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