Amor vivido e expressão pessoal

 Camilo Cogiro



Acreditar que existe qualquer forma de amor conjugal anterior à construção de um relacionamento é desconstruir o sentido de amor verdadeiro. Qualquer amor em um relacionamento se dá por fatores constitutivos da construção social de qualquer relação. O casal, em essência, só existe de fato dentro de uma comunidade. O amor ilhado, desapegado da sociedade e sem relação com as condições objetivas da vida do casal, é uma verdadeira quimera. Não há amor senão o que se constrói. O a priori de qualquer amor é somente a construção individual dos elementos que desaguam em tal relação, não algo metafísico ou espiritual.

O “amor à primeira vista” tende a ser mais a corroboração de carências do que algo que possa ser descrito como amor. Somos a nossa construção de vida, as nossas escolhas num arco histórico situado. A verdade do amor só se estabelece quando ele é manifestado de forma objetiva e intencional. Não há sentimento humano que não seja humano e social. Existem instintos que podem potencializar sentimentos, mas o amor conjugal só se estabelece por meio de uma construção recíproca. Caso contrário, para mim, tal sentimento teria outro nome ou seria derivado de realidades que não constituem o amor no que ele realmente é.

Esse tal amor do qual falo precisa de tempo e de acontecimentos para se realizar. Ele é culturalmente situado, representa uma construção dentro de um quadro de fatores que envolvem questões de identidade, afetos, coisas indizíveis. Não deve se resumir às materialidades, mas muitas vezes está relacionado a entregas, abstinências, intensidades e renúncias. O amor verifica-se no esforço; quem não corresponde não ama igualmente.

Esse sentimento nobre é quase indizível e indescritível. Claro que cada pessoa vai senti-lo e situá-lo à sua maneira. Contudo, na minha concepção, não há amor onde não há ocasiões. No caso de falta de oportunidades, existe apenas uma projeção de pessoa ideal a quem quero amar ou por quem quero ser amado; não há amor em apenas fantasias. Tampouco existiria o “amor platônico”, visto que o amor é factual. Uma idealização não é amor, uma projeção não passa de uma expectativa pessoal. O amor existe quando é reciprocamente construído. O amor não pode ser um sentimento irrealizável, unilateral, uma ilusão de vida. Não há amor apenas no plano da fantasia.

Todos os amores que vivo e vivi são eternos, ficaram na memória, ensinaram-me algo, completaram-me de alguma forma durante algum tempo — em alguns casos, tempo breve, para se tornarem amores maiores. Qualquer amor é uma potência, uma possibilidade potencial.

A cultura nos introduz tendências, modelos afetivos, sexuais e de sentimentos diversos. A própria condição humana é cheia de tendências afetivas. Somos seres existencialistas, preferimos algo, apegamo-nos às coisas de que gostamos, mas o amor pode também nos pegar de surpresa, manifestar-se numa construção diferente da idealizada previamente. Daí que, a priori, existem tendências e preferências, não amor. Como humanos, cultivamos sentimentos elaborados, não apenas instintos; vivemos algo indizível, não sintetizável. Cada indivíduo vai manifestar o amor dentro de suas possibilidades, mas todos, sem exceção, somos capazes de senti-lo e construí-lo (ou pelo menos deveríamos ser). Mesmo que o alicerce do amor seja diferente para cada qual, ele é possível para todos.

Não acredito que existam “almas gêmeas”, não no sentido espiritual. O que existe são bons encaixes e condições que favorecem a construção de sentidos. O amor é feito nas situações, nas escolhas mútuas na mesma direção, no abandono do comodismo, na ausência de má-fé. O amor é um acordo, um fio condutor que guia a vida dos amantes. Algo diferente disso, para mim, teria outro nome.

As preferências não são amores manifestos: são aptidões, mapas que podem ser contrariados pelas múltiplas possibilidades do caminho da vida.

Outra palavra que utilizo com cuidado, tratando-se de sentimentos, é destino. Não há amor predestinado, secular, que tenha cruzado acontecimentos anteriores à vida vivida... Vivemos um arco de atualidade situado, não uma escritura divina em que algo possa ser absolutamente atemporal. A vida é a construção que se faz da vida. Essa afirmação dói, inclusive em mim, já que eu poderia ter tomado decisões melhores no meu passado e ter uma vida bem mais tranquila com base na construção que eu mesmo fiz. O amor depende de algum tempo presencial; caso contrário, é uma quimera, uma simples projeção.

Amor é se dispor a viver conjuntamente de alguma forma, é partilhar significados e construir lembranças, recordar momentos de interesse comum. Toda relação se constrói socialmente; caso contrário, é puro egoísmo.

Mais conceitualizações talvez só possam ser feitas dentro de cada situação de amor, cada situação de entrega, de presença, de acontecimentos, de espelhos olhados simultaneamente. Tampouco quero definir absolutamente algo bastante indizível num simples texto…

Mas tenho maturidade, partindo dos amores que vivi, das situações que experienciei, para afirmar que o amor contém o sonho, mas o simples sonho não é o amor de fato. Projeções idealistas não significam o amor vivido e partilhado. O verdadeiro amor não é monista.

Agradeço, sem dúvidas, a tudo que me permitiu pensar dessa forma, sem ilusões do espírito, sem pontos de partida infundados. O amor é difícil porque pressupõe entrega, demanda sair da zona de conforto individual e se predispor a viver algo com outra pessoa inserida num coletivo complexo. Não há amor isolado do mundo; o sentimento se favorece e cresce com situações factuais, caso contrário, é apenas a centelha, e não a ebulição.

Doravante, cada amor está em seu tempo e lugar, é do tamanho que o edificamos; de resto, é apenas ego individual, não partilhável e que não configura amor.

Sigo com a certeza de que os amores são potências fundamentais na vida, desde que construtivos. Assim como qualquer construção, pode haver remendos, reformas malfeitas, frestas, mas não deixam nunca, para toda a minha eternidade, de ser amor.




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