Camilo Cogiro
Como eu já disse anteriormente em algumas ocasiões, minha escrita é desapegada de compromissos com a universidade. Nem sequer frequentei qualquer graduação em lato sensu ou stricto sensu. Muito embora eu já tenha participado de cursos livres em ambiente acadêmico e de extensão, na Escola de Música da Universidade Estadual de Minas Gerais e no Centro Cultural da Universidade Federal de Minas Gerais.
O marxismo é uma corrente que muito contribui com meu pensamento. Embora eu tenha lido alguns textos do próprio Karl Marx e muitos outros inseridos na produção de pensamento marxista, ficam alguns questionamentos sobre tudo que pesquisei nesse sentido. A crítica ao capitalismo é de teor central nesses escritos. Mas, mesmo tendo acesso a um alargado repertório, ainda fica uma pergunta que eu posso tentar responder: por que o socialismo ainda não foi implementado?
Meu encontro com o marxismo se deu tardiamente; só após os 30 anos comecei a escrever textos sob essa perspectiva. Antes, apesar de já exercer a crítica social, eu me posicionava mais a partir de escolas psicossociais, devido ao meu interesse pela psicanálise e pelo comportamento humano. Estudo Marx há menos de uma década, o que avalio como ainda incipiente. Sigo, porém, com o vigor de encontrar novas inquietações a cada livro; de formular novas perguntas, pois são elas que geram as respostas e servem como guias do conhecimento.
Marx nasceu em 1818, no mês de maio, em Tréveris, então parte do Reino da Prússia e, hoje, da Alemanha, uma localidade que já figurava no mapa intelectual da Europa. Formou-se academicamente em Filosofia e estudou Direito e Advocacia, mas sua obstinação por produzir conhecimento falou mais alto; apesar de ter tido uma vida universitária louvável, não se adaptou ao magistério e preferia escrever artigos para revistas consideradas subversivas e revolucionárias para a época — afinal, ao longo de sua juventude, o liberalismo já estava consolidado e contava com teóricos econômicos reconhecidos, como o autor Adam Smith, e Marx escrevia opondo-se a essa doutrina.
As discussões sobre as experiências ditas “socialistas” que foram concretizadas ou estiveram em prática em países como a URSS, Cuba, China e Albânia — citando apenas os casos mais conhecidos — são importantes, pois representam formas de governo que, em algum momento da história, se autointitularam “socialistas” ou “comunistas”; no entanto, em todos esses exemplos, persistiram e persistem problemáticas que precisam ser solucionadas. A centralização da economia, a não exploração da mão de obra, o acesso amplo aos meios de vida necessários para a dignidade e a socialização dos recursos de produção são alguns dos anseios do desejável socialismo.
Especula-se que o socialismo falha pelo excesso de burocracia ou por sua rigidez institucional; no entanto, as experiências socialistas foram regionalizadas e de curta duração dentro do arco histórico. Sustenta-se, assim, o argumento de que o socialismo ainda não foi plenamente instaurado em nenhum país ou época. O que existiram foram políticas de orientação socialista ou tentativas de estabelecer tal sociedade. Mesmo diante dos insucessos, essas experiências servem como guias para as possibilidades que se anunciam no horizonte.
Um fator que deve ser levado em conta é o questionamento sobre o desejo humano na implementação de qualquer sistema social. Cabe perguntar: por quais motivos esse desejo é movido? Pela economia? Pela materialidade? Ou simplesmente pelo facilitismo? É possível estabelecer que o capitalismo é consideravelmente menos centralizado do que o socialismo. Todavia, apesar das tentativas falaciosas de ditar certa ordem ao caos do capital — como nos argumentos da “mão invisível do mercado” ou da “meritocracia” —, vemos que, no capitalismo, a maioria é excluída das decisões sociais, seja pela falta de tempo, seja pela falta de acesso aos mecanismos de participação. Isso gera um sentimento de conformismo, a ideia de que “as coisas são assim e não se pode mudar a realidade”. Tal postura imobiliza as forças necessárias para uma revolução, deixando as decisões nas mãos daqueles que, historicamente, detêm o poder e não aceitam ter seus privilégios ameaçados.
A desigualdade social é recorrente no capitalismo, e o socialismo seria uma solução para esse problema. No capitalismo, poucos detêm o controle econômico e político, e a maioria se vê forçada a uma rotina de labuta incansável para apenas ter os elementos básicos de sobrevivência (e às vezes nem isso). Acredito fortemente que ninguém se felicita com a própria opressão ou alienação. Por isso, concluo que o capitalismo impõe modelos rigidamente hierárquicos, nos quais o desfrute é privilégio de poucos, enquanto à maioria resta apenas a imposição do trabalho e da servidão. Estou certo de que devo tentar instituir os elementos que eu gostaria de ver realizados; assim, assumo uma postura que favoreça o socialismo na medida em que eu consiga concebê-lo. Então, tento sempre somar voluntariamente às causas em que acredito, seja na formação de opinião, produção de questionamentos ou em projetos específicos do meu partido de escolha militante.
A mídia, seja nas redes sociais digitais ou na televisão, esforça-se para imprimir que o sucesso se concretiza com a riqueza; desse modo, muitos são incentivados a acumular ou tentar acumular cada vez mais. Essa mentalidade de uma “possível” riqueza, distante da maioria por fatores óbvios, sobretudo na conjuntura do Brasil, se torna um ideal, mas é um jogo de cartas marcadas. A realidade sugere que a mobilidade social no nosso país é quase nula; os detentores do capital se perpetuam em sua posição de controladores do dinheiro, deixando, assim, o povo sem nenhuma possibilidade econômica, vivendo para conseguir apenas o do dia a dia. Esses formadores de opinião alienam as massas na tentativa de manter a reprodução do capital nas mãos dos atores históricos e hegemônicos. Falta a formação crítica que levaria as pessoas a se levantarem para uma revolução.
O capitalismo contemporâneo atua não apenas impondo a exaustão do tempo e do esforço no ambiente de trabalho, mas também capturando a subjetividade. Ocorre um sequestro da ideologia por meio de elementos do psiquismo, gerando um antagonismo entre o “ser” e o “querer”. A mídia exerce uma pressão expressiva e excessiva ao projetar modelos de sucesso que são, na verdade, recortes editados dos “melhores momentos” de heróis sociais. Isso provoca uma frustração profunda ao não se atingirem parâmetros inerentemente inalcançáveis, produzidos exatamente para alienar e capturar o desejo de forma artificial. Tal estratégia perpetua elementos que favorecem o capital — seja pelo fetiche da mercadoria ou pelo status social —, incentivando a cultura do “ter”, quando a valorização deveria voltar-se à formação pessoal e ao “ser”.
É preciso notar que o sequestro da subjetividade opera de forma distinta nos lugares sociais. Enquanto o centro consome o 'status', a periferia é bombardeada por uma estética de consumo que promete pertencimento por meio do objeto. O fetiche da mercadoria, como Marx descreveu, faz com que as relações entre pessoas pareçam relações entre coisas. No Brasil, isso se traduz na ideia de que, para “ser alguém”, é preciso “ter o carro da vez”. Essa lógica liga o reconhecimento de classe com reconhecimento pelo consumo, fragmentando a solidariedade entre vizinhos e trabalhadores em prol de uma competição simbólica por ascensão.
Qualquer revolução só acontece com um acúmulo de forças, e eu fico com a impressão de que o trabalho para a revolução ainda é, de certa forma, limitado, algo que não me impede de lutar pela revolução, nem de me esforçar para que aconteça uma mudança aguda na sociedade. Qualquer ruptura drástica é fortemente combatida pelos que tentam manter o status quo, uma “elite” que se autoproclama dona de tudo e de todos.
Contudo, vejo, pelo menos no meu meio social, que tem havido avanços, seja na formação de opinião ou na forma de se portar perante o mundo. Mas não adianta nada ganhar aqui e perder logo ali, por isso a ação deve ser coordenada e sustentável. Além, é claro, de instituir planos aplicáveis que possam impactar de forma positiva a vida de todos.
Não me coloco num pedestal de radicalidade em que considero qualquer pessoa que pense diferente de mim como inimiga; sou pessoa e, assim, respeito qualquer outro ente, dentro dos parâmetros aceitáveis. Existem pautas discutíveis e outras inegociáveis; assim, sigo convicto de que tenho feito o meu melhor, com erros e acertos, vou tecendo a realidade com meu caráter fortemente discursivo e tentando implementar ações que possam melhorar o que há.
É bastante difícil tecer críticas a uma escola de pensamento que coaduna com minha cosmovisão; assim, a minha crítica possível ao marxismo se dá num diálogo, buscando entender os principais conceitos e tensioná-los para avançar com ideias. Mantenho a convicção de que o marxismo é uma bússola eficaz para orientar a intelectualidade. As ideias de Karl Marx gestaram inúmeras teses nos campos da economia, da produção, do consumo, da política e até do comportamento humano. De fato, o marxismo serve de base para as vertentes mais diversas, como as formuladas por Lênin, Antonio Gramsci e Rosa Luxemburgo.
Tenho a impressão de que o marxismo, embora presente na intelectualidade latino-americana e africana, carece de um aprofundamento em teses decoloniais, uma vez que ainda é representado, sobretudo, por pensadores da academia europeia. Mesmo com a difusão das ideias de Marx no Brasil, falta um diálogo mais estreito entre o marxismo e a defesa de representações culturais nacionais — como a capoeira e o samba — e modelos de economia circular aplicáveis a favelas e periferias. Como ainda não tive acesso a obras com esse viés, sigo aberto a sugestões teóricas e práticas. A cultura popular não deve ser vista apenas como entretenimento ou folclore, mas como uma tecnologia de sobrevivência e resistência. O samba, a capoeira não são meros subprodutos, mas espaços onde o tempo do capital deveria ser visto de outra forma. Se o capitalismo exige a produtividade constante e a exaustão do corpo, a roda de samba sugere um tempo coletivo, circular e não linear. É nessa brecha do “não-trabalho” que a consciência de grupo pode se fortalecer. O marxismo brasileiro precisa entender que a revolução também passa pela retomada do corpo e do prazer, territórios constantemente vigiados e reprimidos pela moralidade burguesa.
A transição para um modelo socialista no século XXI não pode ignorar que o capital esgota o trabalhador e o próprio planeta. A economia circular nas favelas, que mencionei anteriormente, é um protótipo de como o socialismo pode se organizar de forma sustentável. Reaproveitar, coletivizar e gerir recursos de forma comunitária rompe com a lógica de peças substituíveis no mercado de trabalho e no meio social. Pensar o socialismo hoje é pensar em uma organização que preserve a vida em todas as suas formas, garantindo que o progresso técnico sirva à emancipação humana sem destruir as bases naturais que nos sustentam. Concluo citando o exemplo do jornal A Verdade, que circula no Brasil há mais de 25 anos: ele cumpre o papel de transpor conceitos marxistas e revolucionários ao público geral de forma clara e criteriosa, garantindo que o trabalhador acesse esse rico acervo de conhecimento.
