Camilo Cogiro
Revisão: Laís Fritzen
A irresistível autoridade da religião não é, para mim, assim tão irresistível no momento. Eu sou um estado em construção; o que acreditei ontem, já foi desconstruído pelas circunstâncias. Se no passado eu fui à Missa ou à Gira de Umbanda, hoje só os faria por motivos irreligiosos. No momento, a religião não me cativa; amanhã, posso encontrar nas crenças motivos para me juntar ao seu culto, mas hoje, de jeito nenhum.
A sedução religiosa se dá por alguns motivos claros: a vontade de participação, o auto e o interjulgamento. Contudo, nenhum espírito alguma vez me deu nada além de ilusão e autoengano.
Se vou para a Aruanda ou para o Umbral, assim irei. Não como contrato, mas como obviedade da falta de controle perante qualquer força extrafísica. Comportamentos ascéticos, em que me privo de ser, fazer ou existir para ser, fazer ou existir depois de morto, são incompreensíveis ao meu ponto de vista. Tenho minha construção neste mundo chamado planeta Terra. O resto são hipóteses que me posicionam, não em suas eventuais confirmações, mas na realidade de pessoa viva que vislumbro, aquela que toma decisões e que constrói a si mesma enquanto pessoa que nasce e que vai morrer. As certezas espirituais são impossíveis. Nem mesmo são deduções; são invenções que fazemos, muitas vezes para suprir nossa necessidade de respostas para problemas que de nenhuma forma podemos solucionar. Nenhuma instância extra-humana pode assumir a autoria da vida do sujeito sem aliená-lo de si mesmo.
Muitos querem responder a uma autoridade, submeter-se a forças sequer explicáveis a partir de argumentos que nos colocam como marionetes de entidades. Quem é o juiz do merecimento espiritual? É um senhor num trono que dita padrões ideais e condena o que o próprio homem determinou condenável? Não consigo compreender nenhuma força que julga acima de julgamentos humanos e estabelece premiações, favorecimentos ou castigos no mundo dos homens, e mais, após a morte. Não que as pessoas sejam a totalidade do que acontece — existem muitos outros fatores —, mas discordo da ideia da ocorrência de espíritos conscientes que se organizam no modelo de tribunais para dar mérito a quem age de acordo com uma moralidade que é muito mais humana do que transcendente.
Esse tal merecimento espiritual é uma criação expectante dentro de padrões que cada um assimila como ideais, não uma verdade inequívoca. Não espero ser feliz daqui a 100, 200 anos, em outro plano ou outra oportunidade material; na verdade, não desacredito dessa possibilidade, mas não vivo consoante a ela. O eu se constrói agora, no hoje, não para satisfazer projeções longínquas de complacência. O eu não pode ser um investimento incerto e metafísico sem data para se fazer. O homem se satisfaz em sua sede bebendo água e o sujeito já é autorizado para existir.
Acredito na essência, nas bioenergias e em outras obviedades que o empirismo me persuade. Porém, de maneira alguma saio por aí esperando salvação ou condenação de seres virtuais em outros planos. Os que explicam outras vidas o fazem por parâmetros da existência humana. Ditam que o espírito evoluído é o que se privou de prazeres, que se submeteu, foi “humilde”. Mas e aí? Essas diretrizes são todas culturais. Cada qual vai conceber de um jeito e, quase sempre, instrumentalizar a religião para defender suas próprias hipóteses.
Não que a religião seja desimportante, pois não é. Em contrapartida, ela é antropológica, não com finalidades de outras vidas, de santos mágicos ou de “macumbas” diversas. É simbólica, organizadora de sentido, e não descrição objetiva de realidades extrafísicas verificáveis. A religião é um elemento agregador quando falada na linguagem humana. Talvez eu esteja fazendo esse texto crítico mais em relação à crença em espíritos salvadores, em momentos prometidos ou em um lugar no céu. Qual é essa energia que julga e define o merecimento, que enxerga sempre o passado ou o futuro como os lugares especulados e que subverte a lógica das decisões com base em suas necessidades subjetivas?
As leis são importantes mediadoras entre nós, pessoas, para nos organizarmos e termos uma certa liberdade garantida, mesmo que ela falhe e precise sempre ser afinada. A lei divina me parece um espelho da lei do sujeito humano em suas destilações. Não confio que alguém seja capaz de mudar meu destino com um “trabalho espiritual”, nem com uma reza. O rezar é muito mais um exercício de organizar o pensamento — em alguns casos, como se estivéssemos ditando o nosso ideal, ou nos lembrando em que somos bons ou ruins dentro de critérios pessoais —, não um pedido para que um ser maravilhoso onipotente decida o trajeto de qualquer elemento do universo.
Concluo o desabafo: não me sujeito a nenhum tipo de entidade que dita o mundo. A humanidade é construída por pessoas com defeitos e qualidades. Crer num poder salvador onipotente desconstrói o mundo como ele se apresenta, e sabemos que coisas ruins também acontecem. É desafio das pessoas fazer um mundo melhor, não consequência de uma evolução sem data, sem nome e sem porquê, que nunca chega, nunca se manifesta e ficamos à espera, passivos, conformados. Pois aprendemos, por ilusões, que assim é.
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