Um pensamento em construção

 Camilo Cogiro



O existencialismo prioriza o “preferir”. O existencialismo diz que eu escolho ser quem sou. Isso converge com o meu marxismo, que me permite decidir lutar pelas causas em que acredito. Ao mesmo tempo, o existencialismo diz que escolher-se é também escolher a humanidade. Nisso, novamente, estou tranquilo, estou bem comigo mesmo e considero bons os impactos que causo no mundo. O existencialismo de Sartre, que venho estudando e conheço melhor, permite-me tomar as minhas próprias decisões sem recorrer a justificativas religiosas. Somos nós que construímos o mundo humano por meio das nossas ações e decisões, tanto perante nós mesmos quanto perante a coletividade.

Sartre utiliza o termo "homem" de forma abrangente, ora para se referir ao indivíduo, ora para se referir à humanidade, às vezes para falar da subjetividade e da individualidade. Na minha primeira leitura da obra “O existencialismo é um humanismo”, isso me causou certa confusão. Agora que estou relendo o mesmo texto pela segunda vez, com mais maturidade na compreensão da obra do que há alguns anos, consigo interpretar melhor as ideias por meio do “olhar” que escolho ter.

Sigo o marxismo, mas não me fecho nele. Como tenho dito recentemente, o meu marxismo permite-me olhar o mundo com os meus próprios olhos. Não sou nem quero ser um repetidor de palavras de ordem. Quero, antes, compreender e fundamentar por que é preciso cumprir determinada tarefa.

O marxismo, em diálogo com o existencialismo, ajuda-nos a entender que a humanidade se constrói historicamente, sem que exista um ponto de chegada previamente garantido. Somos seres que participam da construção de si mesmos, mas não fazemos isso a partir do nada: nossas escolhas acontecem em condições históricas e sociais que não escolhemos inteiramente. Isso também nos permite reconhecer que existem coisas que não são boas e que decisões ruins são constantemente tomadas. O marxismo não deve partir de uma perspectiva mecanicista ou fatalista, como se os resultados da história fossem evidentes ou estivessem previamente determinados. Qualquer luta carrega as incertezas do amanhã; qualquer experiência histórica, como a União Soviética, pode ser derrubada ou transformada; qualquer pessoa que convive conosco possui características constituídas ao longo de sua trajetória.

Não parto da existência de um céu misterioso para explicar a realidade, para além daquele que enxergamos. Não somos produtos predeterminados, não fomos criados por alguma entidade que nos precede e define o nosso destino. Não encontro evidências verificáveis de que os espíritos existam como entidades independentes da realidade material que podemos investigar. Não hoje!

Isso não significa que devamos considerar encerradas todas as possibilidades de conhecimento. Podemos construir novas compreensões e certezas no futuro, à medida que ampliamos nosso conhecimento. O mundo humano não é um projeto pronto, nem uma estrutura imutável, cujas características essenciais estejam definitivamente estabelecidas.

O marxismo precisa dialogar abertamente com outras tradições e estar atento às subjetividades. As explicações objetivas e as generalizações precisam considerar as particularidades dos indivíduos e das suas experiências concretas. Nós, marxistas, não devemos projetar um destino histórico glorioso como resultado garantido das nossas lutas quando a realidade não oferece fundamentos para essa certeza na nossa geração; a geração futura é dona de si mesma. Isso, porém, não diminui a minha convicção de que a luta é necessária e dá significado à minha vida, pois luto pelo que escolho ser e pelo mundo que escolho ajudar a construir.

Como explica Sartre, podemos até saber o itinerário, mas não os acidentes. Rejeito a ideia de predestinação: a história humana é produzida pelos próprios seres humanos, embora não em condições inteiramente escolhidas por todos. Existem determinações sociais e materiais, e nossas escolhas não são infinitas. A liberdade não significa poder fazer qualquer coisa, independentemente das circunstâncias, mas agir e escolher dentro de condições concretas, reconhecendo também a liberdade dos outros. A minha liberdade não existe isolada da liberdade alheia; as relações com os outros podem tanto ampliar quanto restringir as possibilidades de cada um.

Não aceito escolhas que limitem a minha liberdade e a possibilidade de determinar conscientemente os rumos da minha própria existência. Daí a importância da minha formação e da busca por conhecer outras opiniões, pois considero que o conhecimento amplia as condições para tomar decisões conscientes. Consigo desenvolver melhor meu pensamento quando me confronto com outras cosmovisões, e não quando atribuo os acontecimentos a fatores que não posso verificar. O materialismo exige que procuremos compreender a realidade a partir de suas condições concretas, por meio de um pensamento coerente e aberto à investigação, em vez de recorrer a explicações fantasiosas apenas porque confirmam aquilo em que desejamos acreditar.

O meu marxismo só faz sentido se posso revisar minhas interpretações quando identifico contradições ou não encontro sentido em determinadas explicações dentro da realidade concreta em que estou situado. Cada pessoa vive em um mundo situado, constituído por uma trajetória própria e por uma conjuntura social que condiciona suas possibilidades. Por isso, não cultivo ilusões generalistas nem a ambição de conceber revoluções absolutas, como se uma transformação “econômica” pudesse eliminar definitivamente todas as contradições humanas. Cada acontecimento faz parte de uma história situada e pode adquirir novos significados à medida que as condições históricas se transformam. Não devemos enxergar um ponto de chegada absoluto, mas conceber momentos de transição a partir das possibilidades e dos limites da realidade. Não creio num estado de ânimo final, nem num descanso eterno. A realidade é atravessada por tensões, contradições e, às vezes, animosidades.

Não estou otimista, nem considero que estejamos num estágio de desenvolvimento conceitual e social suficientemente avançado para colocar em prática determinadas formulações de coletividade. Muito pelo contrário, enxergo uma tendência acentuada ao individualismo, em que se tenta resolver problemas refugiando-se na esfera individual. Resolver-se tem se tornado mais importante do que resolvermo-nos. Porém, não haverá solução para os problemas coletivos por meio de respostas exclusivamente individuais. Não haverá um poder atemporal capaz de nos retirar das contradições da realidade. Para mim, não há um pódio nem um troféu soberano que ponha fim à inquietude humana. Por isso, luto, no presente, pela própria luta e pelas consequências que desejo alcançar, sem atribuir a ela um significado mágico ou milagroso.

Assumir a responsabilidade pelo que podemos fazer é essencial. Não devemos delegar aos outros as nossas responsabilidades, embora precisemos reconhecer que nem todos dispõem das mesmas condições para agir. Cada conjuntura estabelece, invariavelmente, uma determinada gama de possibilidades. Com maturidade e consciência, entendemos que participamos da construção do nosso mundo, ao mesmo tempo em que somos condicionados pelas circunstâncias desse próprio mundo. Essa tensão entre liberdade e conjuntura deve orientar um marxismo capaz de se reinventar. Não devemos ficar presos ao passado, nem ignorá-lo, mas agir conforme a realidade presente que nos envolve, compreendendo as condições históricas que a produziram.

Não desisto da luta, mesmo diante de condições desfavoráveis, mas também não imagino um futuro redentor, concebido como uma espécie de paraíso secular, com base em ilusões. A transformação social exige ação consciente, análise concreta e disposição para enfrentar as incertezas da história.




Postar um comentário

Postagem Anterior Próxima Postagem